Toda eleição revela mais do que vencedores e derrotados. Ela revela, sobretudo, os valores que uma sociedade decidiu honrar
À medida que se aproxima 6 de outubro, quando milhões de brasileiros irão às urnas para escolher prefeitos e vereadores, o debate público volta a ocupar as ruas, as redes sociais e os espaços de opinião. Promessas são feitas, alianças são anunciadas e discursos disputam a atenção do eleitor. No entanto, por trás de todo processo eleitoral existe uma pergunta mais profunda que raramente é colocada no centro do debate: que tipo de caráter merece governar uma sociedade?
Muito antes das democracias modernas, um texto milenar já formulava essa reflexão. No Livro de Salmos, atribuído ao rei Davi, o Salmo 15 começa com uma pergunta que atravessa séculos: “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem poderá morar no teu santo monte?”
A pergunta não trata de poder, prestígio ou popularidade. Trata de dignidade moral.
A resposta apresentada pelo salmo não descreve um governante poderoso, mas um homem de caráter: aquele que vive com integridade, pratica a justiça e fala a verdade no coração. É alguém que não difama com a língua, não prejudica o próximo e não transforma a palavra em instrumento de destruição. É aquele que honra os justos, rejeita a corrupção, mantém sua palavra mesmo quando isso lhe traz prejuízo e se recusa a aceitar suborno.
Em outras palavras, o salmo descreve o perfil moral de quem é digno de confiança.
Esses princípios, embora nascidos em um contexto espiritual, possuem implicações profundas para a vida pública. Eles revelam que a estabilidade de uma sociedade não depende apenas de instituições ou leis, mas da qualidade moral daqueles que exercem poder e daqueles que escolhem seus representantes.
Quando esses valores desaparecem da vida pública, surgem os sinais conhecidos da decadência institucional: corrupção normalizada, discursos baseados em mentira, polarização alimentada por difamações e governos que se sustentam mais em estratégias de poder do que em princípios.
Como observa o jornalista José Santana:
– Quando a política abandona a verdade e a justiça, suas consequências atravessam fronteiras. Surgem crises econômicas, ondas migratórias, conflitos e sociedades divididas pela mentira. O resultado final é sempre o mesmo: não se destrói apenas a confiança nas instituições – destrói-se o próprio tabernáculo moral que sustenta a civilização.
Essa advertência não pertence apenas ao campo religioso ou filosófico. A história moderna demonstra repetidamente que sociedades que relativizam a verdade e toleram a corrupção acabam pagando um preço elevado: crises políticas, instabilidade econômica e conflitos que ultrapassam fronteiras.
O tabernáculo mencionado no salmo simboliza o lugar da presença divina, um espaço onde a verdade, a justiça e a fidelidade à palavra são fundamentos inegociáveis. Mais do que um lugar físico, ele representa o ideal de uma comunidade sustentada por princípios.
Nesse sentido, o voto não é apenas um instrumento político. É um ato moral.
No silêncio da urna, cada eleitor expressa aquilo que está disposto a aceitar ou a rejeitar na vida pública. Cada voto revela quais valores a sociedade decidiu tolerar e quais decidiu defender.
O Salmo 15 termina com uma promessa que atravessa gerações: aquele que vive segundo esses princípios “jamais será abalado.”
Talvez essa seja a lição mais profunda para qualquer democracia. Instituições fortes não nascem apenas de boas leis ou de sistemas eleitorais eficientes. Elas nascem quando a consciência coletiva decide que integridade, justiça e verdade não são ideais abstratos, mas fundamentos inegociáveis.
Entre o tabernáculo e a urna existe um caminho silencioso que passa pela consciência de cada cidadão. E é nesse caminho que se decide não apenas quem governará, mas que tipo de sociedade será construída.
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Da redação




















