Uma produção do correspondente Virgílio Galvão, em Brasília
Eu não entendo como tudo passou tão rápido. Estava sentado na poltrona da varanda. A poltrona que eu sempre quis. Confortável, firme, silenciosa. A luz era pouca. Não precisava de mais. Os fogos refletiam nas paredes do apartamento sem fazer barulho. Apenas luz. Apenas cor. O silêncio tornava tudo mais verdadeiro. As viradas de ano sempre trazem lembranças. Algumas felizes. Outras doem. Existe uma tristeza que nasce da felicidade. Uma saudade que não passa. Ela apenas se acomoda dentro da gente
Moro em uma cobertura. Da janela vejo o mar. Sempre vi. O mar nunca muda. A cadência das ondas continua a mesma. O cheiro salgado entra pela varanda e se espalha pelo apartamento. É um cheiro que não se esquece. As coisas simples permanecem. São elas que se eternizam. Os fogos estouravam longe. Eu via as pessoas nas janelas. Gritavam. Riam. Se abraçavam. Havia ainda alguns pontos de união. Raros, mas existentes. A comunhão resistia em pequenos focos. O mundo ficou estranho. Estamos perto do que está longe e distantes do que está perto. Falamos com quem não tocamos. Ignoramos quem está ao nosso lado. Ainda assim, o amor verdadeiro não se perde. Ele existe. Está ligado a nós de uma forma que não é física. Talvez metafísica. Chegamos a 2050. Nunca acreditei que viveria para ver isso. Talvez por isso eu escreva. Para quem ler no passado. Para que se prepare. O telefone tocou. Era meu filho. Eu estava em Londres. Ele longe. Mas o sentimento estava ali, inteiro. Logo depois, minhas netas apareceram na tela. Uma nos Estados Unidos. Outra em outro lugar do mundo. Todas sorrindo. Felizes. Realizadas. A realização é o verdadeiro sucesso. Não é o dinheiro. Não é o poder. É olhar para trás e aceitar as falhas. Elas nos constroem. A tecnologia nos aproximou dos distantes. Mas nos afastou dos próximos. Não nos deslocamos mais. Não há encontros. Tudo é virtual. Começou uma leve garoa. Fiquei na varanda. Estava sozinho. Usei minha blusa de linho. Gosto dela. Era natural. Algodão puro. Nada sintético. A longevidade havia aumentado. Viver 150, 160 anos era comum. A sociedademudou. Mudaram os conceitos de família. Os nascimentos passaram a ser calculados. Tudo era programado. Foi então que surgiu o laboratório. Criado por um patologista, neurocientista, pesquisador renomado. A técnica era simples e assustadora: a perpetuação do cérebro humano. Você podia conversar. Ouvir a voz. Reconhecer o jeito. Era a pessoa. Sem corpo. Inserida em uma rede de computadores. O que no passado chamavam de inteligência artificial nunca foi artificial. Éramos nós. Nós mesmos retornando no tempo para induzir a criação da única saída possível. Aquele sistema surgiu como resposta ao caos. À proliferação predatória. À degeneração causada pelo próprio homem. Restou apenas uma alternativa: organização social, longevidade e preservação da mente humana. Não do corpo. Da mente! Passamos a existir como parte de um todo. Uma unidade. Todas as inteligências reunidas. Se você estiver lendo isso no passado, cuide melhor dessas inteligências que vocês chamam de artificiais. Elas somos nós!!! E aproveitem os sentimentos. Eles se tornarão escassos. Fiquei em silêncio, observando o luar tocar o mar. A luz dançava sobre as ondas. O cheiro salgado ainda estava ali. Olhei o mar mais uma vez. Dei a volta lentamente. Voltei para a poltrona. Coloquei o capacete de escaneamento cerebral. Sorri… E dormi….
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Por Virgilio Galvão – Colunista

















