Pai do ex-prefeito de Penha, Aquiles da Costa, Zé Lídio teve a trajetória interrompida em 1998; após 28 anos, acusado será submetido ao Tribunal do Júri em Mato Grosso.
Especial Folha do Estado: antes de se tornar o nome de um processo criminal que atravessaria 28 anos, José Lídio da Costa, conhecido como Zé Lídio, construiu uma história marcada pela família, pelo trabalho, pela participação comunitária e pela vida pública. Filho de Lídio Amâncio, pescador, e de Maria de Lourdes, Zé Lídio nasceu e cresceu em uma família tradicional da comunidade de Armação do Itapocorói, em Penha. Integrante de uma família numerosa, cresceu ao lado de oito irmãos, em um ambiente marcado pela forte convivência familiar e pelos vínculos comunitários.
Desde jovem, segundo relatos de familiares, demonstrava espírito de liderança e participação nas questões coletivas. Envolveu-se em movimentos sociais e comunitários e também participou do Rotary, construindo ao longo dos anos uma relação próxima com moradores, lideranças e diferentes segmentos da sociedade. Ainda jovem, iniciou sua trajetória profissional e constituiu sua família. Aos 21 anos, tornou-se pai de seu primeiro filho e, posteriormente, nasceu sua filha, formando uma família de dois filhos.
Na trajetória profissional, Zé Lídio buscou estabilidade e crescimento por meio do serviço público. Foi aprovado em concurso para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, posteriormente, ingressou na Caixa Econômica Federal, onde desenvolveu uma longa carreira e chegou à função de supervisor-geral de agência. O trabalho na instituição financeira ampliou ainda mais sua rede de relações. No contato diário com clientes, construiu amizades e, conforme relatos de familiares, era reconhecido pela disposição em orientar e ajudar pessoas que procuravam atendimento, informação ou apoio.
A participação comunitária e a proximidade com a população também o levaram à vida política. Zé Lídio exerceu o mandato de vereador, tornando-se uma figura conhecida e próxima da população de Penha. Sua atuação pública consolidou uma trajetória que já era marcada pelo envolvimento com a comunidade e pelo relacionamento com diferentes segmentos da sociedade.
Foi durante sua atuação na Caixa Econômica Federal que surgiu uma nova oportunidade profissional. Entre seus clientes estavam empresários ligados à produção e à comercialização de palmito. A convivência com essas pessoas despertou seu interesse pelo setor e, incentivado pelos contatos que havia estabelecido, decidiu investir na atividade empresarial. A mudança representou uma nova etapa em sua trajetória. Zé Lídio deixou Santa Catarina e seguiu para Mato Grosso, onde instalou uma fábrica de palmito e passou a dedicar-se ao empreendimento.
Era um novo capítulo de sua vida, marcado pela passagem da carreira bancária e política para a atividade empresarial. Família, trabalho, serviço público, participação comunitária, política e empreendedorismo faziam parte da trajetória de José Lídio da Costa quando ele se estabeleceu em Mato Grosso.
Foi nesse contexto que sua vida foi interrompida
Segundo a denúncia apresentada no processo, no dia 3 de maio de 1998, por volta das 18h30, José Lídio trafegava pela zona rural de Nova Lacerda (MT), na estrada de acesso à Mineração Santa Elina, acompanhado da esposa, de dois filhos menores e de um amigo. Conforme a acusação, Orteval Lino Fiuza, conhecido como “Pirunga”, teria interceptado o veículo da vítima em uma ponte estreita.
Ainda segundo a denúncia, após uma breve discussão relacionada à cobrança de uma dívida, o acusado teria efetuado três disparos contra José Lídio, que estava desarmado. A vítima morreu antes de receber socorro médico.
A morte de José Lídio deu início a uma longa trajetória judicial. A ação penal tramita na Comarca de Comodoro e consta oficialmente no Diário da Justiça de Mato Grosso como Ação Penal de Competência do Júri, sob o processo nº 945-90.2005.811.0046, tendo Orteval Lino Fiuza como parte requerida.
Segundo o histórico processual apresentado à família, a denúncia foi recebida pela Justiça em junho de 2005, sete anos depois dos fatos. Ao longo dos anos seguintes, o processo enfrentou diferentes fases, recursos, incidentes processuais e dificuldades relacionadas à localização de testemunhas em diferentes estados. Também houve decisão de pronúncia posteriormente questionada pela defesa e submetida à apreciação do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
O processo chegou, finalmente, à fase de julgamento pelo Tribunal do Júri. A sessão está designada para terça-feira, 1º de setembro de 2026, às 9h, pelo horário de Mato Grosso, no prédio da OAB – 26ª Subseção de Comodoro, localizado na Rua das Acácias, nº 1559-N, Bairro Tertúlia, em Comodoro.
A acusação sustenta a ocorrência de homicídio qualificado por motivo torpe e por recurso que teria dificultado a defesa da vítima, com enquadramento no artigo 121, § 2º, incisos I e IV, do Código Penal. Essas qualificadoras, assim como a própria responsabilidade penal do acusado, serão objeto de análise no julgamento.
O processo conta com oito testemunhas arroladas: Rosângela Schneider da Costa, Orlando Pinheiro, Paulo Barbosa Filho, Diana Schneider da Costa, Aquiles José Schneider da Costa, Hélio Mendes de Souza, Maria Viviane Batista Fiuza e Adão Izaias de Oliveira.
Entre os depoimentos previstos estão testemunhas diretamente relacionadas à história da vítima e aos acontecimentos que cercaram o caso. Um dos momentos de maior significado para a família deverá ser o depoimento de Diana Schneider da Costa, que atualmente reside na Nova Zelândia e viajará ao Brasil para participar do julgamento.
Depois de quase três décadas, ela retorna ao país para prestar depoimento sobre um episódio que marcou profundamente sua vida e a de seus familiares. A distância geográfica não apagou a memória de uma história que continua presente para aqueles que conviveram com José Lídio.
Orteval Lino Fiuza tem atualmente 67 anos. Segundo as informações processuais apresentadas pela família, a defesa alegou problemas de saúde e chegou a solicitar o adiamento do julgamento em razão de consulta médica. O pedido teria sido indeferido pelo juízo, que considerou, entre outros aspectos, a necessidade de preservar a razoável duração do processo e o direito da família da vítima à prestação jurisdicional.
Para a família de Zé Lídio, entretanto, o julgamento representa muito mais do que uma etapa processual. São quase três décadas convivendo com a ausência de um pai, marido, irmão, amigo e homem público que construiu sua trajetória muito antes de seu nome aparecer nos registros de um processo criminal.
Os filhos que eram menores na época da morte cresceram. A família seguiu sua vida. Pessoas mudaram de cidade e algumas passaram a viver em outros países. Mas a memória de José Lídio da Costa permaneceu presente.
É justamente essa memória que familiares e amigos procuram preservar por meio de uma mobilização nas redes sociais, reunindo fotografias, relatos e lembranças de sua trajetória. A intenção é manter viva a história de um homem que, antes de ser vítima de um crime, teve uma vida construída ao lado dos pais, dos oito irmãos, da esposa, dos filhos, dos amigos e da comunidade.
Zé Lídio foi filho de Lídio Amâncio e Maria de Lourdes, irmão em uma família numerosa, pai de dois filhos, servidor público, funcionário da Caixa Econômica Federal, supervisor-geral de agência, vereador e empresário. Construiu sua vida profissional e comunitária em Santa Catarina, mudou-se para Mato Grosso em busca de novas oportunidades e iniciou ali uma nova etapa de sua trajetória.
É essa dimensão humana que não pode ser perdida quando se conta a história do caso. Porque, antes de ser o nome de um processo judicial, José Lídio da Costa era uma pessoa com história, família, trabalho, amigos, projetos e sonhos.
Agora, 28 anos depois, sua história volta ao centro da Justiça.

O Tribunal do Júri deverá analisar as provas produzidas em plenário, ouvir as testemunhas e apreciar as versões apresentadas pela acusação e pela defesa. Caberá ao Conselho de Sentença decidir sobre a responsabilidade penal do acusado, dentro dos limites estabelecidos pelo processo.
Nenhum julgamento poderá devolver aos filhos os anos que passaram sem o pai. Nenhuma decisão poderá apagar a dor de uma família que conviveu durante quase três décadas com uma ausência. Mas a prestação jurisdicional poderá representar uma resposta para um caso que permaneceu aberto por grande parte da vida daqueles que ficaram.
Depois de 28 anos, a família de José Lídio da Costa chega ao Tribunal do Júri carregando não apenas a dor de uma perda, mas também a memória de toda uma trajetória. Uma história que começou na Armação do Itapocorói, passou pelo serviço público, pela Caixa Econômica Federal, pela política e pelo empreendedorismo, atravessou a mudança para Mato Grosso e foi interrompida em uma tarde de maio de 1998.
A Justiça não poderá devolver o passado. Mas poderá, a partir das provas e dos depoimentos apresentados em plenário, escrever um novo capítulo para uma história que permanece viva na memória de seus familiares.
Depois de 28 anos, a família não espera que a Justiça devolva o que foi perdido. Espera que, finalmente, possa encontrar uma resposta para uma história que nunca terminou para aqueles que ficaram.
José Santana | jornalista | MTB 3982/SC
Editor-chefe da Folha do Estado SC

































