Governo agora deve rever seus conceitos para não se afundar ainda mais na crise criada
A rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal abre uma série de leituras – políticas, institucionais e até simbólicas. Reduzir o episódio a uma suposta “traição” no plenário pode até servir ao calor do momento, mas não explica o essencial: houve, sim, um desconforto real com o perfil apresentado e, sobretudo, com o discurso adotado pelo indicado.
Ao longo de sua trajetória como advogado-geral da União no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Messias sempre foi visto como um quadro técnico e alinhado politicamente ao Executivo. No entanto, ao se apresentar ao Senado, optou por um tom que destoou dessa imagem. Ao invocar valores como “defesa da família”, ao posicionar-se contra o aborto e ao recorrer a referências religiosas explícitas falando “em nome de Jesus”, ele construiu uma narrativa que, para muitos parlamentares, soou mais como tentativa de agradar a setores específicos do que como expressão coerente de sua atuação jurídica anterior… e futura.
É justamente aí que surge a dúvida: tratou-se de uma convicção genuína ou de um discurso moldado às circunstâncias? Para um cargo no STF, espera-se não apenas notório saber jurídico, mas também consistência, equilíbrio e independência. Quando há percepção de contradição entre trajetória e discurso, a confiança necessária para a aprovação naturalmente se fragiliza.
Por outro lado, a derrota do governo pode carregar um efeito paradoxalmente positivo. Em primeiro lugar, funciona como um alerta político claro. O Senado não é mera instância homologatória. A base governista precisa ser construída e mantida com mais solidez, diálogo e previsibilidade. Em segundo, abre ao próprio governo a oportunidade de recalibrar sua escolha, buscar um nome com maior trânsito entre diferentes correntes políticas e com uma trajetória menos sujeita a questionamentos de coerência.
Além disso, episódios como esse acabam reforçando, ainda que de forma tensa, a independência entre os Poderes. O Senado cumpriu seu papel constitucional de avaliar e, se necessário, rejeitar. Para o governo, a lição é pragmática: indicação ao STF exige não apenas confiança pessoal, mas viabilidade política ampla.
No fim, mais do que uma derrota circunstancial, o episódio pode se transformar em um ponto de inflexão. Se souber ler o recado, o governo pode se sair mais forte, com uma articulação mais afinada e uma escolha futura mais robusta. Caso contrário, corre o risco de transformar um revés pontual em desgaste recorrente. Principalmente neste ano de eleições presidenciais, quando tudo tem que ser feito com uma consistência bem mais regular.
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L. Pimentel
Jornalista Folha do Estado





























