Coluna semanal sobre a importância da odontologia

A tomografia computadorizada de feixe cônico (Cone Beam) tem se consolidado como uma ferramenta de grande relevância na Odontologia, por aliar custo acessível à obtenção de imagens tridimensionais de alta fidelidade, com baixa dose de radiação.
Trata-se de um exame que deixou de ser apenas complementar em casos selecionados e passou a ocupar uma posição estratégica no diagnóstico, planejamento e definição de condutas clínicas nas mais diversas especialidades odontológicas. Nesse contexto, destaca-se a Endodontia, área que exige precisão durante o acesso ao elemento dentário e na identificação da embocadura dos canais radiculares, em que a previsibilidade é um dos pilares para o sucesso do tratamento endodôntico.
Mas qual é, de fato, o papel da tomografia computadorizada nesse cenário?
A resposta está, sobretudo, na complexidade e diversidade da anatomia interna dos dentes. Embora, do ponto de vista didático, muitos elementos dentários sejam descritos com quantidade e localização padronizadas dos canais radiculares, a realidade clínica é marcada por variações anatômicas frequentes e, muitas vezes, desafiadoras.
A literatura clássica, por meio da classificação de Vertucci, já demonstrava a diversidade de configurações possíveis no sistema de canais radiculares. Na prática, isso se traduz em uma ampla gama de variações que exigem atenção redobrada do profissional em não realizar todo procedimento com a mesma conduta clínica.
Incisivos e caninos, embora geralmente apresentem anatomia mais simples, não estão isentos de variações, como a presença de canais duplos ou alterações em seu trajeto.
Nos pré-molares, a complexidade anatômica já se torna mais evidente, com frequente variação no número de canais, além de possíveis bifurcações e configurações radiculares distintas.
Já os molares representam o maior grau de variabilidade anatômica. A presença de canais de calibre reduzido e difícil identificação, com destaque para o segundo canal mesiovestibular (MV2) nos molares superiores, associada a curvaturas acentuadas, fusões e divisões radiculares, constitui um conjunto de achados relativamente comuns que podem não ser identificados em exames radiográficos de natureza bidimensional. Nos molares inferiores, variações como canais em “C”, canais acessórios e configurações complexas também representam desafios importantes.
De forma geral, quanto mais posterior o elemento dentário, maior tende a ser a complexidade anatômica envolvida e, consequentemente, maior a necessidade de métodos diagnósticos mais fidedignos.
É justamente nesse cenário que a tomografia computadorizada se torna um verdadeiro divisor de águas. Ao permitir a visualização tridimensional, o exame possibilita a identificação precisa dessas variações anatômicas, orientando o acesso coronário, guiando a localização dos canais e a condução adequada do tratamento.
Outro aspecto de extrema relevância é a correlação entre lesões periapicais e falhas no tratamento endodôntico. Não é incomum que processos infecciosos persistentes estejam associados à presença de canais não localizados e/ou não obturados. Nesses casos, a tomografia desempenha papel fundamental ao evidenciar áreas de rarefação óssea e, simultaneamente, sugerir a existência de trajetos não tratados.
Na prática clínica, certas situações tornam-se emblemáticas. Um caso recorrente envolve molares superiores previamente tratados, nos quais o paciente apresenta sintomatologia persistente, lesão periapical e, muitas vezes, espessamento do assoalho do seio maxilar em resposta à infecção. O exame tomográfico permite identificar de forma precisa um canal mesiovestibular adicional (MV2) não tratado, associado a uma área de rarefação óssea, esclarecendo a origem da falha e orientando com segurança o retratamento.
Essa associação entre imagem tridimensional e raciocínio da clínica permite ao profissional não apenas diagnosticar a lesão, mas compreender sua etiologia, o que é essencial para o sucesso terapêutico.No entanto, é fundamental reforçar que a tecnologia, por si só, não substitui o raciocínio clínico. A correta indicação do exame e sua interpretação adequada continuam sendo determinantes para o sucesso terapêutico.
Hoje, não se trata apenas de tratar canais, mas de compreender, com precisão, toda a complexidade anatômica envolvida. Porque, no fim, enxergar melhor é tratar melhor.
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Virgílio P. Galvão – Colunista da Folha do Estado em Brasília – DF
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