Nomeada em homenagem ao ex-governador Hercílio Luz, a ponte foi uma obra ousada para a época, hoje uma realidade
A exatos 100 anos atrás, no dia 13 de maio de 1924, a capital de Santa Catarina ganhou uma obra que viraria símbolo da cidade e do próprio estado: uma grande ponte móvel de metal, suspensa sobre o canal que separa a ilha onde fica Florianópolis do “continente”, como os moradores locais se referem ao restante do país.
Batizada de Hercílio Luz, em homenagem ao então governador catarinense que a mandou construir – e que morreu antes que ela ficasse pronta -, a centenária ponte, apelidada carinhosamente de “A Velha Senhora”, mede 821 metros e é a maior do gênero “pênsil” (ou seja, suportada por cabos e estruturas suspensas) do Brasil. É, também, um monumento histórico, tombada como Patrimônio Arquitetônico, embora tenha ficado interditada, por mau estado, por mais de 30 anos.
Mas, reformada e revitalizada, voltou a ser o cartão-postal favorito de “Floripa” (e o seu centenário será comemorado com uma grande festa no sábado, com fogos de artifício e show gratuito da cantora americana Joss Stone, bem diante da ponte), pela sua beleza, imponência e certas curiosidades.
1 – Já teve pedpagio
Nos nove primeiros anos de uso, entre 1926 e 1935, quem quisesse atravessar a Ponte Hercílio Luz (mesmo que a pé) precisava pagar por isso. Um guichê foi instalado na cabeceira continental da ponte e cobrava 1 “tostão” (moeda que valia 100 réis, ou míseros centavos nos dias de hoje) de cada pessoa — mas a volta era grátis. Foi um dos primeiros “pedágios” (sobretudo para pedestres) do Brasil.
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Foi feita nos EUA
No início do século passado, o Brasil não produzia aço em quantidade suficiente para construir a ponte, que é toda de metal, apenas sustentada por pilares de concreto. O jeito foi fabricá-la nos Estados Unidos e enviar, em partes, a bordo de quatro navios, para Florianópolis, onde ela foi apenas montada.
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Uma ponte igual desabou
No final de 1967, um alerta vindo da empresa que construiu a ponte nos Estados Unidos, deixou os catarinenses preocupados: uma ponte com desenho e concepção estrutural semelhante havia desabado sobre o Rio Ohio, causando a morte de 46 pessoas e acendendo o alerta de que algo precisava ser feito na ponte catarinense, então já em condições um tanto precárias de manutenção. Mas nada foi feito até 1982, quando a ponte acabou sendo interditada, e assim ficou por mais de 30 anos.
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Era para ter outro nome

Quando foi concebida pelo então governador Hercílio Luz – um dos governantes mais populares da história de Santa Catarina -, a ponte iria se chamar Ponte da Independência, nome escolhido por ele próprio. Mas a morte prematura do político fez com que ela fosse rebatizada com o seu nome, em homenagem. E jamais se pensou em mudá-lo.
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Governador “inaugurou” miniatura
Vítima de câncer no estômago, o ex-governador Hercílio Luz morreu logo após voltar dos Estados Unidos, em outubro de 1924, para onde viajou em busca de um tratamento para a doença. Antes disso, sabendo do estado crítico de saúde do político, os responsáveis pela construção da ponte fizeram uma “réplica em miniatura”, com apenas 18 metros de comprimento, para que o governador pudesse “inaugurar” a obra ainda em vida. E assim foi feito. Doze dias depois, ele morreu, aos 64 anos. A ponte que leva o seu nome só seria inaugurada, de fato, quase dois anos depois.
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Construída por questões práticas… e políticas
Além da necessidade de criar uma ligação da Ilha de Santa Catarina com o continente mais eficiente do que as balsas que faziam esse serviço, a construção da ponte teve, também, um aspecto político: os opositores do governo estadual queriam a transferência da capital catarinense para cidade de Lages, sob a alegação de que, por ser uma ilha, Florianópolis ficava “afastada demais” do restante do estado. Com a ponte, o argumento deixou de existir.
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O piso mudou três vezes

Originalmente, a faixa de rolamento dos veículos na ponte era feita com tábuas de madeira, mas ela se tornava extremamente escorregadia nos dias de chuva. Tempos (e alguns acidentes…) depois, a madeira deu lugar ao asfalto, mas isso trouxe outro problema: aumentou barbaramente o peso suspenso, comprometendo a segurança da ponte. Foi quando veio a terceira solução, mantida até hoje: a substituição do asfalto por uma grade de metal, que não só aliviou o peso da estrutura em cerca de 400 toneladas, como impediu a formação de poças d’água e permitiu que os pedestres atravessem a ponte vendo o mar passar sob os seus pés, lá embaixo – uma sensação, no mínimo, diferente. Mas a grade trouxe outro problema…
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Motos não podem usar
Pela mesma razão que as tábuas originais de madeira foram removidas (a falta de aderência para os veículos nos dias de chuva), a atual grade de metal logo se mostrou imprópria para as motocicletas, porque ficou escorregadia demais para a menor área de contato dos pneus com o piso. Por esse motivo, a travessia de motocicletas na Ponte Hercílio Luz é proibida, bem como de caminhões de grande porte – nesse caso, por excesso de peso.
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Seria “vendida” para São Paulo
No ano passado, um forte boato se espalhou nas redes sociais de Florianópolis e deixou os moradores da cidade indignados: a Ponte Hercílio Luz teria sido “comprada” por um rico empresário de São Paulo, que a desmontaria e a levaria para a capital paulista, para ser instalada sobre o poluído Rio Tietê, como parte de um programa de revitalização urbana. Na época, choveram protestos e manifestações. Mas havia uma explicação, e ela estava na data de origem da “informação”: 1º de abril. Uma simples brincadeira, claro.
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Cada noite uma ponte diferente

Dois anos atrás, a querida ponte dos florianopolitanos (como são classificados os habitantes da capital catarinense, embora eles prefiram ser chamados pelo carinhoso apelido de “Manezinhos da Ilha”) ganhou um vibrante sistema de iluminação noturna colorida dinâmica que a deixou ainda mais atraente, porque a cada noite ela fica com uma cor diferente – e nem parece a mesma ponte. Além disso, no Rèveillon e nas datas especiais (como neste sábado, na comemoração do centenário da famosa ponte), o vão central recebe iluminação especial e se transforma em uma cascata de luzes sobre o mar. Quando isso acontece, a ponte símbolo de Santa Catarina fica ainda mais bonita. Ou melhor dizendo, linda.
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Texto: Jorge de Souza
Texto relata acontecimentos e foram baseados em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
Fotos: Secom/Arquivo/Mike/Jonat Rocha/Reprodução


























