Santa Catarina: Este editorial traz, em sua essência, um registro que é lamentável, porém necessário
Para que governos e futuros mandatários não corram o risco de afrontar deliberadamente as instituições e o conjunto de regras que formam o Estado Democrático de Direito, o ex-presidente Jair Bolsonaro entra para a história sob um peso que não se apaga. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal como núcleo central de uma trama golpista, ele agora passa a figurar no rol sombrio dos ex-chefes de Estado que, em pleno exercício do poder ou após deixá-lo, traíram as instituições democráticas e atentaram contra a soberania popular.
No século XXI, o Brasil se junta à lista das democracias que tiveram de enfrentar o pesadelo de ver seu mandatário transformar o cargo máximo da República em instrumento de desestabilização do Estado de Direito. Até então, esse tipo de condenação era mais comum em regimes autoritários ou em países de frágil institucionalidade. Mas o caso brasileiro se reveste de singularidade: a Justiça não apenas reconheceu a articulação golpista, como a vinculou diretamente ao ex-presidente, sem espaço para tergiversações.
A história registra nomes que envergonham nações: Alberto Fujimori, no Peru, condenado por violações de direitos humanos e manipulação institucional; Pedro Castillo, também no Peru, destituído e condenado após tentativa frustrada de autogolpe; Manuel Noriega, no Panamá, que instrumentalizou as Forças Armadas para manter-se no poder; Efraín Ríos Montt, na Guatemala, condenado por crimes de lesa-humanidade após usurpar o poder em um golpe militar; Augusto Pinochet, no Chile, perseguido pela Justiça internacional por ter liderado uma ditadura originada em um golpe sangrento.
Bolsonaro inaugura um novo capítulo: um ex-presidente civil, eleito pelo voto democrático, condenado por conspirar contra o próprio regime que o legitimou pelas urnas. Uma contradição que revela, em toda a sua gravidade, como o discurso de patriotismo pode ser instrumentalizado para tramar contra a pátria.
O STF, ao consolidar sua decisão, envia uma mensagem inequívoca: não há mandato, popularidade ou discurso de falsa moral que possa blindar quem investe contra a Constituição. O julgamento histórico também serve de recado para outros líderes mundiais que ensaiam flertar com aventuras autoritárias – de Donald Trump, nos Estados Unidos, a figuras emergentes da Europa Oriental que testam os limites do autoritarismo.
Bolsonaro passa a integrar uma galeria indesejada: a dos chefes de Estado condenados por atentar contra a ordem constitucional. Um estigma que o acompanhará para sempre e que o inscreve na memória nacional não como herói, mas como conspirador.
O Brasil, por sua vez, sai fortalecido. Se em 1964 a democracia sucumbiu ao golpe, em 2025 as instituições responderam com maturidade. O preço é alto, a cicatriz é profunda, mas o futuro só pode ser construído quando a Justiça separa a liderança legítima da conspiração criminosa.
No tribunal da história, Bolsonaro já foi sentenciado: da faixa presidencial ao banco dos réus, de presidente da República a condenado por golpe de Estado.
LINHA DO TEMPO: GOLPES, RUPTURAS E RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA NO BRASIL
- 1964 – Golpe militar depõe João Goulart e instaura uma ditadura de 21 anos.
- 1985 – Redemocratização com Tancredo Neves eleito pelo Colégio Eleitoral; José Sarney assume após sua morte.
- 1992 – Impeachment de Fernando Collor por corrupção.
- 2016 – Impeachment de Dilma Rousseff, em meio a forte polarização política, mas sem configuração de golpe segundo o STF.
- 2018 – Eleição de Jair Bolsonaro, com discurso contra o sistema político e a imprensa.
- 08/01/2023 – Invasão golpista às sedes dos Três Poderes em Brasília.
- 2025 – Supremo Tribunal Federal condena Jair Bolsonaro como núcleo central da tentativa de golpe de Estado.
CIÊNCIA, CONSCIÊNCIA E ESPERANÇA
Aos milhares que o tiveram como herói, a realidade agora se impõe: nos registros eternos do Judiciário, Jair Bolsonaro não será lembrado como salvador, mas como réu condenado por atentar contra a Constituição. Para esses brasileiros, o confronto com a consciência é inevitável – a dor de ver o mito transformado em criminoso da pátria.
Mas, desse choque, pode nascer a verdadeira maturidade democrática: compreender que nenhum líder está acima da lei e que o poder do povo só é ou será legítimo quando respeita a ordem constitucional. É nessa lição dura que reside a esperança para um Brasil que aprende com os erros, reafirma sua democracia e caminha para um futuro em que a liberdade jamais voltará a ser ameaçada por aventureiros que chegam ao poder.
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Da Redação
Folha do Estado





















