EDITORIAL: O BRASIL À VENDA – QUEM GANHA COM A PRIVATIZAÇÃO DAS ESTATAIS?

As causas, as consequências e a quem interessa a privatização das estatais no Brasil

O discurso privatista no Brasil avança sob a justificativa de modernização e eficiência, mas a realidade é que o desmonte do capital nacional tem favorecido, em grande parte, interesses estrangeiros. A lista de empresas estatais que estão na mira da privatização revela o tamanho da entrega: Correios, Eletrobras, Telebras, Casa da Moeda, EBC, Lotex, Codesp, Emgea, ABGF, Serpro, Dataprev, CBTU, Trensurb, Ceagesp, Ceasaminas, Codesa e Ceitec. Cada uma delas representa um setor estratégico, com impacto direto na soberania e no desenvolvimento industrial do país.

A questão central não é simplesmente ser contra ou a favor da privatização. O problema está na forma como esse processo tem sido conduzido, ignorando o potencial de investimento que essas empresas poderiam trazer para o Brasil e os riscos de entregá-las ao controle privado sem garantias de benefícios à população.

O CASO DA ELETROBRAS E O RISCO DA DEPENDÊNCIA ENERGÉTICA

A privatização da Eletrobrás, vendida sob o argumento de que reduziria custos e melhoraria a eficiência do setor elétrico já mostra seus primeiros impactos. A empresa, que antes era responsável por investimentos de longo prazo e garantia estabilidade no fornecimento, agora segue a lógica do lucro privado. Isso significa que regiões menos lucrativas podem enfrentar menos investimentos e tarifas mais altas, enquanto o Brasil perde o controle sobre um setor essencial.

Países desenvolvidos evitam esse caminho. A França mantém controle sobre a EDF, sua principal empresa elétrica, e os Estados Unidos têm centenas de empresas públicas regionais no setor. A China, por sua vez, usa suas estatais para garantir que energia e infraestrutura impulsionem seu crescimento econômico. Por que o Brasil deveria agir diferente?

CORREIOS E A PRIVATIZAÇÃO DA LOGÍSTICA NACIONAL

Os Correios são outra estatal cobiçada pelo capital estrangeiro. A empresa é lucrativa, estratégica e essencial para a integração nacional. Em um país com dimensões continentais como o Brasil, depender de empresas privadas para a distribuição de correspondências e encomendas pode aumentar custos e dificultar o acesso a regiões mais afastadas.

Além disso, os Correios são uma peça-chave para o comércio eletrônico, um setor em franca expansão. Entregar essa infraestrutura a grupos privados pode resultar na concentração de serviços nas mãos de poucos players, reduzindo a concorrência e prejudicando consumidores e pequenas empresas.

SERPRO E DATAPREV: O RISCO DA ENTREGA DE DADOS SENSÍVEIS

A possível privatização do Serpro e da Dataprev, responsáveis pelo processamento de dados estratégicos do governo, levanta uma preocupação ainda maior: a soberania digital do Brasil. Em tempos de guerra cibernética e disputas tecnológicas globais, vender o controle de dados do Estado, pode representar um risco para a segurança nacional.

Empresas como Google, Amazon e Microsoft já dominam boa parte da infraestrutura digital mundial.  Se o Brasil abrir mão de suas próprias ferramentas de processamento de dados, estará criando uma dependência tecnológica que pode comprometer sua autonomia em áreas estratégicas.

O BRASIL, A CHINA E OS EUA: UM CONTRASSENSO ESTRATÉGICO

Se o discurso liberal que justifica a privatização fosse uma verdade absoluta, esperar-se-ia que os países mais desenvolvidos seguissem o mesmo caminho. Mas a realidade é justamente o oposto.

A China, por exemplo, possui mais de 100 mil empresas estatais e usa esse aparato para impulsionar sua economia, investir em infraestrutura e garantir sua soberania energética e tecnológica. Nos Estados Unidos, país ícone do capitalismo, existe mais de 10 mil empresas estatais em níveis federal, estadual e municipal, atuando em setores estratégicos como energia, transporte e tecnologia.

O Brasil, por outro lado, tem apenas 130 estatais, somando-se empresas federais, estaduais e municipais, e ainda assim sofremos pressão para reduzir esse número. Correios, Eletrobrás, Telebrás, Casa da Moeda, Serpro, DataPrev e outras dezenas de empresas estão na mira de privatizações que entregam ativos estratégicos ao capital estrangeiro. Empresas que poderiam ser fontes de inovação e desenvolvimento industrial acabam sendo tratadas apenas como cifras em balanços contábeis.

Se China e EUA, as duas maiores economias do mundo, enxergam valor na manutenção de empresas estatais para garantir seu crescimento e sua soberania, por que o Brasil insiste em seguir o caminho oposto? A resposta não parece estar no interesse nacional, mas sim na pressão de grupos que lucram com o desmonte do patrimônio público.

PRIVATIZAR É SEMPRE O MELHOR CAMINHO?

Se privatizar fosse sinônimo de eficiência, a Vale não teria sido protagonista de um dos maiores desastres ambientais do Brasil após sua venda. Se privatizar resolvesse todos os problemas, não teríamos casos de empresas estrangeiras assumindo serviços essenciais e, depois, abandonando contratos quando não são mais lucrativos.

O debate não pode ser simplificado. Algumas estatais podem, sim, precisar de reformas, melhorias na gestão e maior transparência. Mas entregar ativos estratégicos para grupos privados – muitas vezes estrangeiros – sem uma política clara de desenvolvimento industrial e social é um erro grave.

Países como China e Estados Unidos mantêm empresas estatais em setores estratégicos porque entendem que a soberania nacional não pode ser colocada à venda. O Brasil parece estar seguindo o caminho oposto, desmontando seu capital estatal sem uma visão de longo prazo. Será que tem alguém obtendo lucros extras nessas transformações?

A pergunta que fica é: a quem interessa essa privatização desenfreada? Porque, ao que tudo indica, não é ao povo brasileiro.

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Da Redação FESC

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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