Editorial: Os 50 anos do atentado à sede da ABI no Rio de Janeiro

Foi no dia 19 de agosto de 1976 que uma bomba tentou calar a imprensa

Há datas que não podem ser esquecidas. Não porque devamos permanecer presos ao passado, mas porque uma sociedade que conhece a própria história está mais preparada para defender as liberdades que conquistou. Nesta quarta-feira, 19 de agosto, completam-se 50 anos de um dos episódios mais graves contra a liberdade de imprensa durante o regime militar brasileiro: o atentado a bomba contra a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro.

Era 19 de agosto de 1976. Uma bomba explodiu no sétimo andar do edifício da ABI, destruindo instalações onde funcionavam o Conselho, setores administrativos e a Presidência da entidade. Felizmente, ninguém ficou ferido. Horas depois, outro artefato explosivo foi localizado na sede carioca da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas este acabou sendo desativado. O significado daquele atentado, entretanto, ultrapassava em muito os danos materiais.

A ABI havia se transformado, naquele período, em uma importante voz de defesa das liberdades democráticas. Em meio à censura, às prisões de jornalistas e às denúncias de violações de direitos humanos, a entidade passou a cobrar explicações das autoridades e a defender o livre exercício do jornalismo. Seu posicionamento tornou-se particularmente firme na segunda metade da década de 1970, quando o país começava a viver os primeiros movimentos de abertura política. O atentado, portanto, carregava uma mensagem de intimidação: quem ousasse defender a liberdade poderia ser atingido.

Panfletos encontrados após a explosão reivindicaram a ação em nome da chamada Aliança Anticomunista Brasileira (AAB). A própria ABI registra que as autoridades jamais conseguiram identificar de forma conclusiva os autores do atentado. Documentos posteriormente revelados também mostram as dúvidas e suspeitas existentes nos órgãos de informação da época.

E esse talvez seja um dos aspectos mais dolorosos dessa história: a violência foi praticada, os danos foram concretos, mas a responsabilização dos autores nunca chegou a uma conclusão capaz de encerrar definitivamente o caso.

Mas o episódio não ficou isolado. A partir de 1976, uma sequência de atentados e ações violentas atingiu entidades, veículos de comunicação, religiosos, advogados, intelectuais e outras pessoas identificadas com a defesa da redemocratização. Em setembro daquele ano, por exemplo, o bispo Dom Adriano Hipólito foi sequestrado e agredido, enquanto uma bomba explodiu no carro utilizado na ação. Também houve atentado contra a residência do empresário proprietário da Rede Globo de Televisão e jornalista Roberto Marinho.

Anos depois, em 1980, o terrorismo político atingiria novamente a OAB, desta vez de maneira ainda mais trágica, com a morte da funcionária Lyda Monteiro da Silva que ao abrir uma carta-bomba esta acabou explodindo matando-a.

Tudo isso demonstra que o atentado contra a ABI não deve ser analisado como um acontecimento isolado. Ele fez parte de uma escalada de violência destinada a criar medo justamente quando a sociedade brasileira começava a exigir o retorno pleno das liberdades.

E para que relembremos, aqui está a grande lição dos 50 anos daquele episódio. Uma bomba pode destruir paredes, portas, móveis e documentos. Pode espalhar destroços. Pode provocar medo. Mas não consegue destruir uma ideia quando essa ideia está incorporada à consciência de uma sociedade. A liberdade de imprensa é uma dessas ideias.

É através dela que o cidadão toma conhecimento dos fatos, acompanha os governos, fiscaliza o poder, denuncia abusos e forma sua própria opinião. Jornalistas podem cometer erros – como qualquer profissional também pode – mas o caminho para corrigir o erro é a informação, o contraditório e a responsabilidade jornalística, jamais a censura, a ameaça ou a violência.

Por isso, recordar os 50 anos do atentado à ABI também é recordar que democracia não é apenas o direito de votar. Especialmente nesses dias que voltam a ser conturbados. Democracia é poder falar, escrever, questionar, investigar, discordar e cobrar explicações sem medo de represálias ou de ameaças. Qualquer semelhança dos os tempos atuais pode não ser mera coincidência.

É importante, igualmente, que essa memória não venha ser utilizada para alimentar novas divisões políticas na nossa Pátria. A história deve servir para ensinar, e não para criar novos inimigos. O Brasil já pagou um preço muito alto quando a intolerância substituiu o diálogo e quando setores da sociedade entenderam que poderiam impor suas ideias pela força.

Cinquenta anos depois, o prédio da ABI continua de pé. Mais importante ainda: continua de pé o princípio que os autores daquele atentado tentaram atingir.

A palavra não pode ser calada pela bomba. A imprensa não pode ser intimidada pela violência. E a democracia não pode depender do silêncio dos cidadãos.

Lembrar o atentado de 19 de agosto de 1976 é, portanto, muito mais do que recordar uma página triste da história brasileira. É reafirmar, para as novas gerações, que liberdade de expressão, liberdade de imprensa, respeito às instituições e Estado Democrático de Direito não são privilégios. São conquistas que precisam ser permanentemente defendidas.

Cinquenta anos depois, a melhor resposta àqueles que tentaram calar a ABI continua sendo a mesma: falar. Informar. Investigar. Questionar. E preservar a democracia. Porque a memória é também uma forma de resistência. E um país que não esquece seus dias de escuridão aprende a valorizar ainda mais a luz da liberdade. O episódio de 1976 merece ser lembrado não apenas como um atentado contra um prédio, mas como um ataque à liberdade de imprensa e à própria democracia brasileira.

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Da Redação

Folha do Estado SC

 

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