Editorial Parque Inundável: uma obra que aponta para o futuro da região

Camboriú e Balneário Camboriú dão um passo histórico para garantir água, proteger vidas e preparar a região para os desafios do futuro

Na próxima segunda-feira, dia 14, por volta das 09h30 da manhã, Camboriú e Balneário Camboriú estarão diante de um daqueles momentos que podem marcar definitivamente a história de uma região. As duas prefeituras, em conjunto com o CIM-AMFRI e a Empresa Municipal de Água e Saneamento de Balneário Camboriú – Emasa, avançam para o lançamento da licitação destinada à implantação do Parque Inundável Multiuso da Bacia do Rio Camboriú.

Não se trata simplesmente de mais uma obra pública. Estamos falando de um empreendimento estratégico, concebido para enfrentar dois dos maiores desafios que já fazem parte da realidade regional: a segurança hídrica e o risco de inundações.

O projeto prevê a construção de um dique e de um reservatório ao longo do Rio Camboriú e de seus alimentadores, os rios do Braço e Canoas. A estrutura terá justamente essa característica de múltiplo uso: que é armazenar a água bruta para o abastecimento, ajudar a controlar as cheias e, posteriormente, permitir a criação de um parque com áreas verdes, lazer, convivência e potencial turístico.

Mas é importante compreender a dimensão dessa iniciativa. Camboriú e Balneário Camboriú cresceram de maneira extraordinária nas últimas décadas. Balneário Camboriú transformou-se em um dos principais destinos turísticos do Brasil, enquanto Camboriú experimenta igualmente forte expansão urbana e populacional. Esse crescimento trouxe desenvolvimento, empregos e investimentos, mas também aumentou a pressão sobre os recursos naturais, especificamente sobre a água. E água, como sabemos, não se fabrica.

Podem-se construir prédios, avenidas, hotéis, indústrias e novos bairros. Mas nenhum município consegue sustentar seu crescimento sem garantir, antes de tudo, água suficiente e de qualidade para sua população. E é justamente nesse ponto que o Parque Inundável assume uma importância que ultrapassa as fronteiras dos dois municípios.

Em períodos de estiagem, a reserva poderá contribuir para garantir maior estabilidade ao abastecimento. Em períodos de chuvas intensas, a estrutura terá a função de amortecer as vazões e reduzir os riscos de inundação. Documentos do CIM-AMFRI apontam justamente essas três finalidades: reserva de água, controle de cheias e criação de um parque multiuso. Ou seja: a mesma obra que poderá ajudar a proteger a população das enchentes também poderá ajudar a garantir água nos períodos de escassez.

O projeto não nasceu agora. Sua elaboração vem de anos atrás e já passou por estudos técnicos, licenciamento ambiental e diferentes etapas de articulação institucional. Em 2025, as duas prefeituras (que são governadas por pai e filha) intensificaram a união de esforços para viabilizar o empreendimento, que foi posteriormente contemplado pelo Novo PAC com recursos federais.

O investimento anunciado supera R$ 120 milhões, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento destinados à prevenção de desastres climáticos. O município de Balneário Camboriú também incorporou ao seu planejamento plurianual uma contrapartida superior a R$ 12 milhões para a execução do projeto.

Há ainda outro aspecto que merece ser destacado: a união institucional. Durante muito tempo, municípios brasileiros foram acusados – muitas vezes com razão – de pensar seus problemas apenas dentro dos limites de seus territórios. Mas rios não respeitam divisas municipais nem estaduais. A chuva não consulta mapas. E a falta de água também não escolhe onde começa ou termina um município.

O Rio Camboriú pertence a uma bacia hidrográfica compartilhada. Por isso, Camboriú e Balneário Camboriú precisam pensar juntas. E a participação do CIM-AMFRI demonstra que a solução também precisa ser regional. É um exemplo de como o planejamento conjunto pode transformar um problema comum em uma oportunidade de desenvolvimento para todos.

O Parque Inundável também representa uma mudança importante de mentalidade: deixar de agir apenas depois que o problema acontece. Enchentes não podem ser enfrentadas somente depois que as águas invadem casas, ruas e estabelecimentos. A falta de água não pode ser enfrentada somente quando os reservatórios estão baixos. Obras estruturantes exigem antecipação, planejamento e visão de décadas. Essa talvez seja a maior virtude desse projeto. “Pensar hoje naquilo que nossas cidades precisarão amanhã”.

E existe ainda o componente ambiental. A proposta não se limita a uma grande estrutura de engenharia. O próprio conceito do empreendimento prevê a utilização da área reservada como parque multiuso, com possibilidades de lazer, convivência, turismo e valorização ambiental. Isso significa que uma área destinada à proteção hídrica poderá também se transformar em espaço de qualidade de vida para a população.

Mas é preciso lembrar que nenhuma grande obra pública está livre de desafios. Por isso será fundamental que todo o processo licitatório seja conduzido com absoluta transparência, rigor técnico, responsabilidade ambiental e fiscalização permanente. Também será indispensável que a população acompanhe cada etapa da implantação, porque uma obra dessa dimensão pertence, em última análise, a toda sociedade. O Parque Inundável não pode ser visto como patrimônio de um prefeito, de uma prefeita, de uma administração ou de um partido político. “Ele é patrimônio das futuras gerações”.

Os atuais gestores poderão ter o mérito de viabilizar a obra, mas quem verdadeiramente colherá seus resultados serão os moradores que ainda irão nascer, as famílias que continuarão chegando à região e uma economia que dependerá cada vez mais de infraestrutura capaz de suportar o crescimento urbano e as mudanças climáticas. O Rio Camboriú, portanto, deixa de ser apenas um curso d’água que atravessa duas cidades. Passa a ser reconhecido pelo que realmente representa: “um patrimônio natural e estratégico para toda uma região”.

Que a licitação de segunda-feira seja, portanto, o início de uma nova etapa. Uma etapa marcada pela responsabilidade, pela integração entre municípios e pela compreensão de que desenvolvimento não significa apenas construir mais. Desenvolver também significa garantir água, proteger vidas, preservar o meio ambiente e preparar as cidades para o futuro.

Se o Parque Inundável cumprir aquilo para o que foi planejado, Camboriú e Balneário Camboriú estarão dando um passo muito importante nessa direção. Porque as grandes obras não são aquelas que simplesmente mudam a paisagem. São aquelas que mudam a qualidade de vida das pessoas e garantem um futuro mais seguro para quem ainda vai chegar.

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Da Redação

Folha do Estado SC

 

Redação
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