Velório de Getúlio Vargas no Rio de Janeiro em 24 de agosto de 1954. Ao fundo, militares fazem a guarda junto ao caixão, ilustrando a presença de tropas descrita por Durival

Paralelamente, o jornalista e membro da União Democrática Nacional (UDN), Carlos Lacerda, alvejava o então presidente com violentos ataques políticos. Em plena Guerra Fria, setores militares temiam que Vargas estivesse dando uma guinada à esquerda. Cada vez mais isolado, o presidente viu seu nome implicado no evento que afundaria de vez o seu governo. Tratava-se do “Atentado da Rua Tonelero”, no qual o chefe de sua guarda pessoal, Gregório Fortunato, atuou como mandante de um ataque a tiros contra Lacerda, que acabou resultando na morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz.
Com o desenrolar da crise, a imprensa, a UDN e os militares exigiram a renúncia de Getúlio, mas ele respondeu incisivamente que só sairia do Catete morto. Cumpriu a promessa: em 24 de agosto de 1954, o presidente suicidou-se com um tiro no peito.
Mas, e se pudéssemos ter uma descrição vívida de um joinvilense que testemunhou esses dias de tensão de dentro do Palácio do Catete? Graças ao saudoso jornalista Herculano Vicenzi, esse registro existe. Trata-se do fruto de uma entrevista realizada por ele com Durival Lopes Pereira, ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ).
DURIVAL NO CATETE
Vereador por três mandatos (da 9ª à 11ª legislatura), Durival presidiu o Legislativo joinvilense no biênio 1991-1992. Morador de Pirabeiraba e proprietário do tradicional restaurante Serra Verde, em 1954 ele era ainda um soldado da Polícia do Exército e estava de serviço no Palácio do Catete naqueles fatídicos dias de agosto.
Em 1989, quando a morte de Vargas completava 35 anos, Vicenzi entrevistou Durival, que descreveu o presidente da República e o desenrolar dos eventos a partir de uma perspectiva única. Sobre Vargas, Durival relatou que ele agia como um homem comum no trato diário: costumava bater papo com os soldados, demonstrava interesse em saber de suas origens e perguntava sobre a profissão de seus pais. O ex-vereador recordou com orgulho ter sido cumprimentado pessoalmente pelo presidente diversas vezes.
Sobre o clima de tensão, Durival informou que, agarrado a uma metralhadora Thompson, cumpriu vários turnos no Catete por cinco dias seguidos. Trincheiras com sacos de areia foram montadas ao redor do palácio para conter possíveis ataques. “Por muito pouco tudo não explodiu”, definiu. A lembrança encontra eco na realidade histórica, já que a Força Aérea Brasileira (FAB) liderava a oposição militar e ameaçava bombardear o Catete caso Getúlio resistisse. O nível de estresse era tamanho que alguns soldados chegaram à exaustão, sucumbindo ao puro cansaço, de acordo com o entrevistado.
Na fatídica madrugada da virada de 23 para 24 de agosto, Durival viu os ministros chegarem para tratar com Vargas, em uma reunião que se prolongou noite afora. Quando a manhã se aproximava, os políticos começaram a deixar o local. Segundo as memórias do soldado, o catarinense Nereu Ramos foi o último a sair, por volta das seis e meia da manhã.
Embora teorias da conspiração sugiram vez ou outra que Vargas pudesse ter sido assassinado, Durival sempre concordou com a versão oficial. Para ele, não restava a menor dúvida de que fora suicídio mesmo. Sua convicção era tamanha que ele afirmou que “no Catete só ficou o presidente com seus familiares, entre eles seu irmão Benjamin”. E concluiu: “Assassinato só poderia ter ocorrido se um membro da própria família de Getúlio Vargas tivesse cometido o ato, o que acho simplesmente descartável”.
Isso porque, segundo suas lembranças, os portões foram fechados logo após a saída de Nereu Ramos, e absolutamente ninguém mais entrou. Ele também detalhou que, quando a notícia da morte se espalhou entre os empregados da casa, cenas de desespero tomaram conta do palácio, com algumas mulheres chegando a desmaiar.
Por fim, o futuro parlamentar joinvilense acompanhou a colocação do corpo de Vargas no caixão. No entanto, ele ainda demoraria a ser liberado de seu posto. Naquele mesmo dia e no seguinte, uma multidão, um verdadeiro “mar humano”, formou-se em frente ao Catete, chorando a perda de seu líder.
O IMPACTO NACIONAL E O LEGADO DO REPÓRTER
Essa imensa comoção popular acompanhada pelo impacto da Carta Testamento de Getúlio inverteu a pressão política e encurralou a oposição, fazendo com que os militares recuassem e o golpe de Estado fosse adiado por mais dez anos no Brasil, acontecendo apenas em 1964.
Para a história de Joinville, o registro desse bastidor tão íntimo do poder nacional só foi possível graças ao talento de Herculano Vicenzi. Um nome respeitado na imprensa joinvilense, ele atuou por décadas como repórter e cronista de sensibilidade ímpar. Autor de diversos livros, ele notabilizou-se por percorrer as áreas urbanas e rurais de Joinville resgatando memórias, culturas e personagens locais, imortalizando relatos que, sem a sua pena, fatalmente se perderiam no tempo, como este relato que liga um ex-presidente da Câmara de Joinville a um evento de máxima importância histórica nacional.
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Foto: Enê Garcez dos Reis
Fonte: Acervo Museu da República






















