Memória CVJ: Que vai muito além do patrimônio

Afinal, quem foi Abel Schulz?

Fachada do Ginásio Abel Schulz, Patrimônio Material de Joinville. Foto: Secom/Prefeitura de Joinville

Inaugurado em 1951, durante as celebrações do centenário de Joinville, o Ginásio Abel Schulz marcou definitivamente a vida desportiva e cultural da cidade. Como reconhecimento de sua relevância histórica, agora em 2026, a Comissão do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Natural do Município (Comphaan) concedeu ao imóvel o título de patrimônio material de Joinville¹.

  1. Secretaria de Cultura e Turismo. Ginásio Abel Schulz recebe título de patrimônio material de Joinville. Joinville, 24 ago. 2026. Disponível em: https://www.joinville.sc.gov.br/noticias/ginasio-abel-schulz-recebe-titulo-de-patrimonio-material-de-joinville/. Acesso em: 28 ago. 2026.

    Mas quem foi Abel Schulz? Ao revisitarmos a história do homem que empresta nome ao ginásio, encontramos também elos com a Câmara de Vereadores.

    PLANOS PARA A CONSTRUÇÃO E INAUGURAÇÃO

    Em 1948, Albano Schulz presidia a Sociedade Amigos de Joinville (SAJ), uma entidade cívica que se dispunha a organizar as celebrações do primeiro centenário da cidade. Em 1948, Albano enviou à Câmara de Vereadores dois ofícios, comentando o interesse da Liga Atlética Norte Catarinense (LANC) em construir um ginásio onde a SAJ pretendia erguer a praça da bandeira e o monumento aos imigrantes. Albano então sugeriu construir um pavilhão de exposições durável, para usar durante os festejos e, após reformas internas, passar a servir de ginásio de esportes.

    A ideia prosperou. Em 9 de março de 1951, o imóvel foi inaugurado inicialmente como “Pavilhão de Exposições”. Encerradas as festividades do centenário, o espaço foi finalmente entregue ao esporte. Uma matéria do jornal A Notícia, de novembro de 1951, registra que a edificação foi  reinaugurada no dia 18 daquele mês, agora como ginásio, sediando logo em seguida o Campeonato Brasileiro de Basquete. Conclui-se, portanto, que a adaptação interna da estrutura levou cerca de oito meses para ser executada.

    FAMÍLIA SCHULZ: ALBANO E ABEL

    O leitor atento deve ter notado que o idealizador da obra e o homenageado que dá nome ao ginásio compartilham o mesmo sobrenome. Trata-se de pai e filho.

    Como presidente da SAJ, o médico Albano Schulz liderou as obras do centenário. Natural de Joinville e formado em medicina no Rio de Janeiro, Albano também construiu uma trajetória política: foi eleito vereador em dois pleitos, exercendo o mandato durante a 1ª Legislatura (1947-1951) e renunciando antes de assumir a cadeira para a qual havia sido eleito na 2ª Legislatura (1951-1955). Seu legado público foi tão expressivo que, em 1983, a antiga Avenida Brasil foi rebatizada como Avenida Dr. Albano Schulz².

  2. PINHEIRO, Patrik Roger. Biografia de Albano Schulz. Memória CVJ, 2023. Disponível em: <https://memoria.camara.joinville.br/index.php?title=Albano_Schulz>. Acesso em: 28 de agosto de 2026.

    No entanto, a vida pessoal do ex-vereador foi marcada por uma tragédia familiar. Seu filho, Abel Schulz, enfrentou uma grave enfermidade que o deixou acamado por meses, falecendo precocemente em fevereiro de 1972. Além de ter atuado como contador na empresa Tupy, Abel era um grande entusiasta dos esportes, destacando-se como atleta e técnico de basquete do time do Cruzeiro do Sul no campeonato estadual³.

  3. MONUMENTO ao progresso. Jornal A Notícia, Joinville, 19 nov. 1951.

    Anos após sua morte, em um gesto que homenageava o filho desportista e fazia uma justa deferência à liderança comunitária do pai, o então chamado “Palácio dos Esportes” foi oficialmente batizado como Ginásio Abel Schulz.

  4. Embora o ano exato da renomeação não tenha sido localizado, reportagens de 1980 do jornal Hora H ainda se referem ao local como “Palácio dos Esportes” paralelamente ao novo nome, “Ginásio Abel Schulz”, o que indica que a mudança de nomenclatura parece ter sido recente à época.

    O ELO ENTRE O LEGISLATIVO E O PATRIMÔNIO

    Ao longo de seus 75 anos de história, o Ginásio Abel Schulz transcendeu sua vocação esportiva. Além de ter sido palco de inúmeras competições, o espaço abrigou apresentações das primeiras edições do Festival de Dança, sediou exposições da Festa das Flores e recebeu inúmeros grandes shows.

    A evolução do imóvel caminha lado a lado com a própria história política do município. O ginásio nasceu do esforço comunitário liderado por um ex-vereador e suas fundações passaram pela Câmara Municipal na forma de ofícios e debates. Hoje, integrado de forma indissociável à paisagem urbana do Centro, o espaço reafirma sua importância. A preservação de sua inconfundível cobertura em treliça de madeira não é apenas a manutenção de um teto; é a proteção de um arco arquitetônico e histórico que conecta a Joinville do centenário à cidade do presente.

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Por Patrik Roger Pinheiro,
Historiador e Coordenador do Memória CVJ.

 

Redação
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