Rejuvenecimento: Estaríamos criando uma geração de rostos clonados?

Em uma era dominada por seringas, filtros e padrões de beleza, a verdadeira revolução estética pode estar justamente em compreender o que existe antes da aplicação: a biologia, a genética e a epigenética de cada indivíduo

Por Carla Alves

Há algo estranho acontecendo diante dos nossos olhos: quanto mais sofisticada fica a estética, mais parecidos alguns rostos parecem estar. Abra as redes sociais. Observe os antes e depois. Veja as tendências. Lá estão os mesmos lábios, as mesmas maçãs do rosto, as mesmas mandíbulas marcadas, os mesmos queixos projetados e, muitas vezes, a mesma expressão facial.

A promessa da estética sempre foi valorizar a beleza individual. Mas estamos diante de um paradoxo: uma indústria criada para realçar a identidade pode estar contribuindo para apagá-la. E talvez seja hora de fazer uma pergunta incômoda:

Estamos tratando o envelhecimento ou estamos apenas apagando rostos?

Não há dúvida de que os procedimentos injetáveis revolucionaram a estética. O ácido hialurônico, a toxina botulínica e os bioestimuladores, quando corretamente indicados e utilizados, são ferramentas importantes e capazes de produzir resultados excelentes.

O problema não está na ferramenta. Está em transformar a ferramenta no centro da profissão. O profissional que aprende a injetar antes de aprender sobre o envelhecimento

A formação estética contemporânea vive um momento delicado. Em meio à explosão dos cursos rápidos, treinamentos práticos e técnicas cada vez mais sofisticadas, existe o risco de formar profissionais excelentes em execução, mas insuficientemente preparados para compreender a complexidade do envelhecimento. Aprende-se onde aplicar, quanto aplicar, como aplicar e qual produto utilizar. Mas uma pergunta fundamental pode acabar ficando em segundo plano:

Por que essa pessoa envelheceu dessa maneira?

O rosto humano não envelhece como uma fotografia que perde volume. O envelhecimento facial é um processo biológico complexo, que envolve pele, tecido adiposo, músculos, ligamentos, vasos, matriz extracelular e estruturas ósseas. A pele modifica sua capacidade de renovação. O colágeno e a elastina sofrem alterações. A hidratação diminui. A exposição solar acumula danos. O metabolismo celular muda. Processos inflamatórios e oxidativos participam da deterioração tecidual.

E existe uma camada ainda mais profunda nessa história: a atividade dos nossos genes também é influenciada pelo ambiente e pelo estilo de vida.

É justamente nesse ponto que a estética precisa deixar de ser apenas uma ciência da aparência e começar a se tornar, cada vez mais, uma ciência da biologia.

“A estética não pode formar apenas bons injetores. Precisa formar profissionais capazes de compreender o tecido que estão tratando”.

Existe uma armadilha silenciosa na estética: transformar o paciente em protocolo.

A paciente chega ao consultório com uma história, uma genética, um estilo de vida, uma estrutura facial, hábitos, exposições ambientais e expectativas completamente particulares. Mas, se a avaliação for superficial, tudo isso pode desaparecer diante de uma sequência pronta de procedimentos.

E, de repente, diferentes pessoas começam a receber praticamente o mesmo planejamento. É a chamada “estética de receita pronta”.

O problema é que rostos não são receitas.

O rosto que denuncia o procedimento

Talvez uma das maiores ironias da estética atual seja esta: muitas pessoas procuram procedimentos para parecer mais naturais, mas acabam adquirindo uma aparência que denuncia exatamente o contrário. Não é necessariamente porque o procedimento foi mal realizado. É porque o excesso de padronização também pode produzir artificialidade.

Quando toda face precisa ter a mesma projeção, o mesmo contorno e a mesma proporção, a individualidade começa a desaparecer.

Nem toda ruga precisa ser eliminada. Nem toda assimetria precisa ser corrigida. Nem todo rosto precisa de volume.

Existe uma diferença enorme entre melhorar uma característica e tentar substituir a identidade de alguém por um padrão de beleza.

Envelhecer também é uma experiência humana. A estética não deveria transformar uma pessoa de 60 anos em um rosto de 30. Deveria ajudá-la a apresentar a melhor versão possível de si mesma aos 60. Essa mudança de pensamento parece simples, mas é revolucionária. Porque significa trocar a pergunta:

Quanto produto esse rosto suporta?

Do que esse rosto realmente precisa?

A estética do futuro não estará na seringa!

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Virgílio Galvão – Colunista da Folha do Estado – Brasília DF

Redação
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