A manifestação recente do vereador Márcio Silva, em um vídeo falando sobre saneamento, a audiência pública e a concessionária, apresenta problemas graves de ordem técnica, informativa e ética.
Ao invés de contribuir para o debate público qualificado sobre saneamento, tema sensível e estruturante, opta por recortes descontextualizados, simplificações indevidas e imputações que não resistem à análise dos fatos: (link da fala do vereador https://www.instagram.com/reel/DXP1PV-hcYO/?igsh=MTFsdnRoOHlsYndybw%3D%3D)
A distorção deliberada da comparação com “desastre de avião”
A fala que compara a saúde pública a um “desastre de avião” foi claramente retirada de um contexto técnico. Em áreas como saúde coletiva e engenharia sanitária, analogias desse tipo são amplamente utilizadas para ilustrar eventos de baixa probabilidade, porém de alto impacto, justamente para reforçar a importância da prevenção e da robustez dos sistemas.
Transformar essa analogia em “deboche” é uma distorção retórica evidente. Trata-se de um expediente típico de comunicação populista: pinçar uma frase, retirar seu contexto científico e ressignificá-la para gerar indignação e engajamento superficial. Isso não eleva o debate, empobrece.
A alegação falsa sobre o sistema de adução do Rio Tijucas
Aqui reside o ponto mais grave da fala. O vereador afirma que o sistema de adução de água do Rio Tijucas “nem sequer foi pro papel”, sugerindo inércia ou omissão da concessionária. Essa afirmação é tecnicamente equivocada e institucionalmente irresponsável.
O próprio vereador esteve presente na audiência pública em que foi explicado, de forma clara, que:
O projeto existia no planejamento; A sua exclusão ocorreu no âmbito do Segundo Termo Aditivo contratual; A decisão foi do Poder Concedente (Prefeitura de Itapema), e não da concessionária. Ou seja, não se trata de desconhecimento, trata-se de omissão seletiva da verdade. Ao atribuir à concessionária uma responsabilidade que não lhe compete, o vereador induz a população ao erro e compromete a transparência do debate público.
A simplificação irresponsável sobre falhas operacionais
A crítica sobre vazamentos de esgoto e falhas no sistema ignora um aspecto básico da engenharia sanitária: Nenhum sistema é absolutamente imune a falhas. Estações elevatórias dependem de fatores como: fornecimento contínuo de energia elétrica; integridade mecânica de bombas e equipamentos; condições externas imprevisíveis (chuvas intensas, sobrecarga, crescimento urbano acelerado).
Se o vereador deseja eliminar completamente falhas, há caminhos objetivos:
Solicitar à Celesc garantia absoluta de fornecimento ininterrupto de energia (o que, tecnicamente, não existe); Indicar fabricantes de bombas e sistemas 100% infalíveis, imunes a desgaste, algo inexistente na engenharia mundial. A crítica, portanto, desconsidera a realidade técnica e flerta com o discurso irreal.
O crescimento acelerado e os avanços no saneamento
Itapema é uma das cidades que mais crescem no Brasil. Esse crescimento, pressiona sistemas de água e esgoto; exige investimentos contínuos; demanda planejamento de longo prazo. Apesar disso, houve avanços concretos, ampliação de redes de abastecimento, expansão da coleta e tratamento de esgoto, modernização de sistemas operacionais. E há um ponto que não pode ser ignorado: Municípios com maior cobertura de saneamento apresentam melhores indicadores de saúde pública
Isso é consenso técnico nas áreas de saúde coletiva e epidemiologia: redução de doenças de veiculação hídrica; menor pressão sobre o sistema hospitalar; melhoria da qualidade de vida. Portanto, atacar o saneamento com base em distorções não ajuda, prejudica a própria população.
Jornalismo responsável vs. narrativa de engajamento
A fala do vereador segue um padrão preocupante: simplificação de temas complexos; personalização de responsabilidades institucionais; uso de linguagem de confronto para gerar repercussão. Isso pode render “likes”, mas não resolve problemas estruturais. O debate sobre saneamento exige: precisão técnica; responsabilidade institucional; compromisso com a verdade.
O episódio revela um fenômeno recorrente:
A substituição do compromisso com a verdade pela lógica da performance política. Agentes públicos não são influenciadores digitais. Seu papel não é produzir indignação, mas informação qualificada e soluções concretas. Quando um representante eleito: distorce falas técnicas, omite fatos conhecidos, e direciona acusações de forma leviana, ele não está exercendo fiscalização — está comprometendo a confiança pública.
O vereador, no exercício de seu mandato, pode solicitar todas as informações; basta um ofício. Não precisa pedir em público, expor um conjunto de informações e buscar engajamento. Vereador responsável vai buscar a informação correta e não fica fazendo “videozinhos” com relatos distorcidos, pinçados ou com informações que não correspondem plenamente à realidade. A sociedade não precisa de narrativas simplificadas. Precisa de responsabilidade, rigor e verdade.
Nota da Redação: O vereador tem o espaço em aberto para exercer o contraditório, caso assim entenda. Elias Costa Tenório





























