A Guerra da Tainha: decisão do Governo Federal provoca reação de pescadores, prefeitos, deputados e do governador de Santa Catarina

Santa Catarina: As manifestações do deputado Emerson Stein, do prefeito Alexandre Xepa e do governador Jorginho Mello refletem a preocupação de milhares de pescadores catarinenses diante da suspensão da pesca da tainha. Entre a preservação ambiental, a proteção de uma tradição secular e a manutenção da renda de inúmeras famílias, Santa Catarina volta a discutir o equilíbrio entre sustentabilidade, cultura e desenvolvimento econômico.

Por José Santana
Jornalista e pós-graduado em Direito Constitucional

A Guerra da Tainha: decisão do Governo Federal provoca reação de pescadores, prefeitos, deputados e do governador de Santa Catarina

A recente suspensão da pesca artesanal da tainha em Santa Catarina pelo Governo Federal provocou forte reação de pescadores, prefeitos, parlamentares e do Governo do Estado. A medida, adotada após o monitoramento indicar o atingimento do limite estabelecido para a captura da espécie, trouxe à tona um debate que vai muito além das questões ambientais, envolvendo aspectos históricos, culturais, sociais e econômicos profundamente enraizados na identidade catarinense.

Todos os anos, entre os meses de maio e julho, um dos mais tradicionais espetáculos do litoral brasileiro mobiliza milhares de pessoas ao longo da costa catarinense. A chegada dos cardumes de tainha representa muito mais do que uma temporada de pesca. Trata-se de um acontecimento que atravessa gerações, movimenta economias locais e preserva costumes herdados dos antigos colonizadores açorianos e dos povos indígenas que já habitavam a região muito antes da formação do estado.

A pesca artesanal da tainha faz parte da história de Santa Catarina há séculos. Em praias como Itapema, Porto Belo, Bombinhas, Governador Celso Ramos, Florianópolis, Navegantes, Penha e Balneário Piçarras, os tradicionais ranchos de pesca continuam sendo espaços de convivência comunitária, transmissão de conhecimento e preservação da cultura popular.

Muito antes de existirem estudos científicos ou regulamentações governamentais, os pescadores já observavam os ventos, as correntes marítimas e os ciclos migratórios da espécie. Esse conhecimento tradicional, acumulado ao longo de gerações, tornou-se parte integrante do patrimônio cultural catarinense.

A suspensão da atividade provocou manifestações de diversas lideranças políticas. O deputado estadual Emerson Stein criticou a decisão federal e afirmou:

“Não garantiram a picanha e agora querem nos tirar a tainha. A pesca da tainha é tradição cultural centenária, mas também é sustento de um ano inteiro para muitas famílias do nosso litoral.”

A declaração reflete a preocupação de milhares de famílias que dependem da temporada para complementar sua renda anual. Em diversas comunidades costeiras, a pesca da tainha representa uma importante fonte de sustento, movimentando uma cadeia econômica que envolve pescadores, comerciantes, restaurantes, mercados, transportadores, fabricantes de equipamentos e trabalhadores temporários.

O prefeito de Itapema, Alexandre Xepa, também manifestou apoio aos pescadores e destacou a importância da atividade para a cidade:

“A gente está apoiando os pescadores artesanais. Não é só pesca, é uma cultura, uma tradição da cidade de Itapema e do estado de Santa Catarina. Centenas de pescadores dependem dessa pesca da tainha para levar o pão de cada dia para suas famílias.”

A observação do prefeito reforça uma realidade amplamente reconhecida nos municípios litorâneos. A pesca artesanal não produz apenas riqueza econômica. Ela fortalece laços comunitários, preserva tradições e mantém viva uma atividade que faz parte da formação histórica de Santa Catarina.

A relevância da pesca da tainha para Santa Catarina pode ser medida não apenas por sua tradição centenária, mas também pelos números que movimentam a economia do litoral. Em Florianópolis, safras recentes registraram aproximadamente 400 toneladas de tainha capturadas, gerando impacto econômico estimado em cerca de R$ 4 milhões. A atividade mobiliza centenas de pescadores e mais de mil pessoas diretamente ligadas aos tradicionais ranchos de pesca, demonstrando que a cadeia produtiva da tainha vai muito além do pescado comercializado.

Em todo o litoral catarinense, a pesca artesanal impulsiona mercados, peixarias, restaurantes, transportadores, fabricantes de equipamentos, trabalhadores temporários e o turismo gastronômico. Estimativas do setor apontam que Santa Catarina responde por parcela significativa da produção nacional de tainha, consolidando-se como principal referência da atividade no Brasil.

Sob a ótica ambiental, contudo, o debate também possui fundamentos relevantes. A preservação dos estoques pesqueiros é uma necessidade reconhecida mundialmente. O controle da captura busca assegurar a sustentabilidade da espécie e garantir que futuras gerações continuem usufruindo desse recurso natural.

O desafio consiste em equilibrar a conservação ambiental com a proteção das comunidades tradicionais que dependem diretamente da atividade. Nesse contexto, Alexandre Xepa também questionou a forma como a decisão foi tomada:

“O Governo Federal precisa conversar com os municípios, precisa conversar com o estado de Santa Catarina, precisa conversar com os nossos pescadores. Não simplesmente fazer um canetaço em pleno pico da pesca da tainha.”

A crítica ao processo decisório também é compartilhada pelo governador Jorginho Mello, que tem defendido a revisão das cotas aplicadas à pesca artesanal catarinense e questionado o tratamento diferenciado dado ao estado.

“Não há restrições semelhantes para outros estados do país. Por que tratar Santa Catarina de maneira diferente? Não somos só nós que pescamos tainha, e só tem essa restrição pra gente.”

Em outra manifestação, o governador reforçou:

“Estamos falando de um tipo de pesca que é cultural para o nosso estado, que sustenta milhares de famílias de pescadores artesanais e é patrimônio cultural de Santa Catarina.”

A posição do governador reforça uma discussão que ultrapassa os limites da pesca e alcança o próprio pacto federativo brasileiro. Para muitos catarinenses, a questão não envolve apenas números, cotas ou estatísticas ambientais, mas o reconhecimento de uma atividade que ajudou a construir a identidade econômica e cultural do litoral sul do Brasil.

Ao questionar por que Santa Catarina seria submetida a restrições não aplicadas a outros estados, o governador vocaliza uma preocupação compartilhada por pescadores, prefeitos e lideranças regionais, que defendem a necessidade de critérios transparentes, equilíbrio ambiental e tratamento isonômico entre as diferentes regiões do país.

Do ponto de vista econômico, os impactos da suspensão podem ser significativos. Em diversas localidades, a safra da tainha representa uma das principais oportunidades de geração de renda do ano. Quando grandes cardumes são capturados, os benefícios se espalham por toda a economia local, fortalecendo o comércio, os serviços e o turismo gastronômico.

Há ainda um aspecto social que não pode ser ignorado. Em muitas praias catarinenses, o arrasto da tainha continua sendo realizado de forma coletiva, reunindo dezenas de pessoas em uma demonstração de cooperação, solidariedade e trabalho comunitário. Essa tradição transforma a pesca em um patrimônio imaterial que transcende sua função econômica.

O debate em torno das cotas e da suspensão da pesca demonstra que a busca por soluções sustentáveis exige diálogo permanente entre governos, cientistas, órgãos ambientais e as comunidades tradicionais. Preservar os recursos naturais é uma obrigação de toda sociedade. Mas preservar a cultura, a história e a sobrevivência das populações que dependem desses recursos também é um compromisso igualmente importante.

A tainha representa muito mais do que uma espécie marinha. Para Santa Catarina, ela simboliza séculos de tradição, trabalho e identidade cultural. O verdadeiro desafio está em construir políticas públicas capazes de garantir, ao mesmo tempo, a proteção do meio ambiente e a continuidade de uma atividade que ajudou a moldar a história do litoral catarinense.

Porque, para milhares de famílias, a pesca da tainha não é apenas uma atividade econômica. É parte da própria história de vida de um povo que aprendeu a tirar do mar seu sustento, sua cultura e sua esperança.

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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