ARTIGO: CPI ou palanque?

Quando o roteiro já vem pronto o resultado sempre deixa dúvidas

O recente encerramento da Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal escancara um problema que já não pode mais ser tratado como exceção: o uso político de um instrumento que deveria servir exclusivamente à verdade.

O que se viu, mais uma vez, foi uma CPI que começou com aparência de investigação séria e terminou com cheiro de roteiro previamente escrito. Depoimentos, debates e diligências acabaram funcionando muito mais como encenação para sustentar uma narrativa do que como etapas genuínas de apuração dos fatos.

E então chega o relatório final – peça que deveria coroar o trabalho com equilíbrio e responsabilidade. No entanto, o documento apresentado pelo senador Alessandro Vieira soou como algo distante do que se esperava de uma investigação isenta. Em vez de esclarecer, parece selecionar; em vez de analisar com profundidade, parece confirmar convicções já estabelecidas. Não é um relatório que surpreende, mas sim um relatório que confirma aquilo que já se imaginava desde o início.

O relator, figura que deveria atuar como árbitro da razão, assume, nesse contexto, um papel que levanta questionamentos inevitáveis. Quando a condução dos trabalhos e a conclusão final caminham na mesma trilha de interesses políticos bem definidos, fica difícil sustentar a ideia de neutralidade. E sem neutralidade, o que resta de uma CPI?

Resta a desconfiança. E esse é o maior prejuízo. Não é apenas o conteúdo do relatório que está em jogo, mas a credibilidade do próprio Senado Federal. A cada CPI que se transforma em palco político, reforça-se na sociedade a sensação de que esses processos já têm lado, já têm destino e, pior, já têm conclusão antes mesmo da primeira oitiva. E isso é grave. Muito grave.

Porque uma CPI desacreditada não cumpre seu papel. E quando um instrumento de fiscalização perde sua força, quem ganha não é a democracia, é a impunidade, é a descrença, é o afastamento do cidadão da vida pública.

O Brasil não precisa de CPIs que funcionem como extensão de disputas políticas. Precisa de investigações sérias, de relatórios que enfrentem os fatos, todos eles, e de representantes que entendam que sua responsabilidade vai muito além de interesses momentâneos.

Se continuar assim, a pergunta deixa de ser incômoda e passa a ser inevitável: estamos diante de uma comissão de inquérito… ou apenas de mais um palanque financiado pelo contribuinte?

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Por L. Pimentel

Folha do Estado

 

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