Brasília: A Estética do futuro não estará na seringa

Imagine uma estética na qual o profissional não começa perguntando qual procedimento o paciente deseja

Por Carla Alves

Se a estética do presente está cada vez mais concentrada em corrigir sinais visíveis do envelhecimento, a estética do futuro poderá estar muito mais interessada em compreender os mecanismos que fazem esses sinais surgirem. E é justamente nesse ponto que uma das fronteiras mais fascinantes da ciência começa a ganhar espaço: a epigenética.

Epigenética é o campo da ciência que estuda mecanismos capazes de regular a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA. Ao longo da vida, fatores ambientais e comportamentais podem influenciar esses mecanismos e modificar a maneira como determinados genes são expressos.

Na prática, isso amplia nossa compreensão sobre o envelhecimento. Ele não deve ser visto apenas como uma consequência inevitável da passagem do tempo, mas como resultado de uma complexa interação entre genética, ambiente, comportamento e processos celulares.

É importante, entretanto, separar ciência de promessa comercial. A epigenética não é uma fórmula mágica capaz de “desligar” o envelhecimento. Também não existe, atualmente, uma aplicação estética capaz de reprogramar geneticamente uma pessoa e simplesmente devolver sua juventude.

O que existe é uma mudança de perspectiva. E essa mudança poderá abrir caminho para uma nova geração de estratégias de cuidado, prevenção e personalização.

DO PREENCHIMENTO À PERSONALIZAÇÃO

Imagine uma estética na qual o profissional não começa perguntando qual procedimento o paciente deseja.

Começa perguntando: como está a qualidade daquele tecido?

Quais fatores podem estar acelerando seu envelhecimento? Como é sua exposição ambiental? Como está seu estilo de vida? Qual é seu histórico? Quais características são individuais e precisam ser preservadas? Quais processos biológicos podem estar relacionados àquela alteração?

E, no futuro, quais informações genéticas e epigenéticas poderão contribuir para uma estratégia verdadeiramente personalizada? Essa é, talvez, uma das direções mais promissoras para a estética.

Menos protocolo. Mais indivíduo.

Menos padronização. Mais ciência.

Menos obsessão por volume. Mais qualidade tecidual.

A chamada terapia epigenética aplicada à estética ainda está em desenvolvimento e exige pesquisa científica rigorosa. Não podemos transformar uma área promissora da ciência em mais uma promessa de marketing. Mas podemos começar a preparar o terreno.

Porque talvez o grande salto da estética não esteja em descobrir uma nova substância para preencher o rosto.

Talvez esteja em desenvolver maneiras cada vez mais precisas de compreender e, quando cientificamente possível, modular os processos biológicos relacionados ao envelhecimento.

A PRÓXIMA REVOLUÇÃO SERÁ INVISÍVEL

Durante décadas, a estética foi construída em torno daquilo que conseguimos enxergar: rugas, manchas, flacidez, sulcos, perda de volume e alterações nos contornos.

Agora, a ciência começa a nos levar para além da superfície. Para dentro das células.

Proteínas. Genes. Sinalização molecular. Inflamação. Metabolismo. Epigenética.

É possível que a próxima grande revolução estética aconteça justamente nesse território invisível. E isso exigirá uma transformação profunda na formação dos profissionais.

O especialista do futuro não poderá ser apenas aquele que domina a técnica de aplicação de um produto. Precisará compreender anatomia, fisiologia, biologia celular, mecanismos do envelhecimento, genética, epigenética e, principalmente, os limites científicos de cada tecnologia.

Porque a estética do futuro será cada vez menos sobre “o que colocar” e cada vez mais sobre “o que compreender”.

O FIM DA ESTÉTICA DE ROSTOS IGUAIS?

Existe outra questão que precisa ser colocada.

Será que o objetivo da estética deve ser fazer com que todos pareçam mais jovens da mesma maneira? Talvez a maior sofisticação estética não seja conseguir produzir o mesmo resultado em diferentes pessoas. Talvez seja justamente conseguir preservar aquilo que torna cada indivíduo único.

O futuro não deveria produzir uma população de rostos perfeitamente padronizados, preenchidos e submetidos a um único conceito de beleza.

Deveria possibilitar que as pessoas envelhecessem com identidade, saúde tecidual, equilíbrio e naturalidade. Isso representa uma mudança de paradigma.

Durante muito tempo, o sucesso de um procedimento foi associado àquilo que era imediatamente perceptível: mais volume, menos rugas, contornos mais definidos.

A estética que se desenha para o futuro poderá valorizar resultados menos óbvios, porém biologicamente mais inteligentes: preservar tecidos, compreender processos, prevenir alterações e respeitar as características individuais.

E, nesse futuro, a pergunta mais importante diante de um paciente talvez não seja:

Qual procedimento vamos fazer?

Mas: O que está acontecendo biologicamente com você?

A resposta poderá estar muito além da seringa. Poderá estar na interação entre genética, epigenética, ambiente, comportamento e história de vida.

UMA NOVA FORMA DE ENXERGAR A BELEZA

A verdadeira estética personalizada não será aquela que transforma todos em uma versão semelhante de um mesmo padrão de beleza. Será aquela que terá conhecimento suficiente para compreender que cada rosto possui uma história biológica.

A ciência do futuro poderá nos oferecer ferramentas cada vez mais sofisticadas para entender essa história. Mas tecnologia, por si só, não será suficiente. Será necessário conhecimento. Será necessária formação. Será necessária responsabilidade.

E será necessário compreender que envelhecer não é uma doença que precisa ser apagada, mas um processo biológico que pode ser estudado, cuidado e, dentro dos limites da ciência, manejado de maneira cada vez mais individualizada.

Talvez a grande evolução da estética não esteja em fazer mais procedimentos. Talvez esteja em fazer escolhas melhores. Não se trata de abandonar a seringa, os preenchedores, a toxina botulínica ou outras tecnologias. Essas ferramentas continuarão tendo seu espaço quando houver indicação adequada. A questão é outra: elas não podem ser o ponto de partida de toda estratégia estética.

O ponto de partida deve ser o indivíduo. Porque o profissional verdadeiramente preparado para o futuro não será aquele que sabe apenas aplicar mais produtos. Será aquele que sabe quando aplicar, por que aplicar, quando não aplicar e, principalmente, o que precisa compreender antes de tocar naquele rosto.

No fim, talvez a estética mais avançada seja justamente aquela que não tenta transformar você em outra pessoa. É aquela que olha para cada rosto e reconhece sua singularidade.

E diz:

“Eu não quero transformar você em outra pessoa. Quero compreender por que você é assim e preservar, da melhor maneira possível, aquilo que faz você ser você.”

Talvez essa seja a verdadeira estética do futuro. Pois, talvez ela esteja muito além da seringa.

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Virgílio Galvão

Correspondente da Folha do Estado

Brasília DF

Redação
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