Cassado por 13 votos, Cleiton Profeta reage: “O caso está longe do fim”

EXCLUSIVO | “A história e o tempo costumam julgar melhor do que qualquer comissão processante”, diz Cleiton Profeta após cassação

Em entrevista à Folha do Estado SC, vereador cassado contesta legalidade do processo, acusa motivação política e anuncia nova batalha judicial

JOINVILLE (SC) – Cassado por 13 votos em uma das sessões mais acompanhadas da história recente da Câmara de Vereadores de Joinville, o vereador Cleiton Profeta (PL) falou pela primeira vez após a decisão que resultou na perda de seu mandato.

Em entrevista exclusiva à Folha do Estado SC, o parlamentar afirmou que o processo foi marcado por irregularidades, contestou a imparcialidade da Comissão Processante, criticou vereadores que votaram pela cassação e anunciou que pretende recorrer ao Poder Judiciário para buscar a anulação da decisão.

A votação encerrou um processo iniciado em março deste ano, após denúncia apresentada pelos diretórios municipal e estadual do Partido Novo. O caso mobilizou o meio político, dividiu opiniões entre apoiadores e críticos do vereador e teve ampla repercussão nas redes sociais e nos meios de comunicação da região.

Enquanto os defensores da cassação sustentam que houve quebra de decoro parlamentar, Cleiton Profeta afirma que foi alvo de uma articulação política destinada a interromper sua atuação fiscalizadora dentro do Legislativo joinvilense.

Resultado da votação

A cassação foi aprovada pelo quórum mínimo exigido pelo Decreto-Lei nº 201/1967, com 13 votos favoráveis, 2 contrários e 3 abstenções.

Votaram pela cassação

  • Alisson (Novo)
  • Érico Vinícius (Novo)
  • Neto Petters (Novo)
  • Vanessa Venzke Falk (Novo)
  • Adilson Girardi (MDB)
  • Henrique Deckmann (MDB)
  • Pelé (MDB)
  • Kiko da Luz (PSD)
  • Pastor Ascendino Batista (PSD)
  • Mateus Batista (União Brasil)
  • Liliane da Frada (Podemos)
  • Lucas Souza (Republicanos)
  • Vanessa da Rosa (PT)

Votaram pela absolvição

  • Instrutor Lucas (PL)
  • Wilian Tonezi (PL)

Abstiveram-se

  • Brandel Junior (Republicanos)
  • Diego Machado (PSD)
  • Tânia Larson (União Brasil)

O próprio Cleiton Profeta não participou da votação por ser o parlamentar denunciado.

Entenda o caso

O processo teve início em março de 2026, quando o plenário da Câmara aceitou, por 14 votos a 2, uma denúncia apresentada pelos diretórios estadual e municipal do Partido Novo.

A representação apontou supostas condutas incompatíveis com o exercício do mandato parlamentar, incluindo ofensas dirigidas a outros vereadores, episódios de tumulto durante sessões legislativas e relatos envolvendo confrontos com integrantes da Casa.

Para apurar os fatos foi constituída uma Comissão Processante formada pelos vereadores Adilson Girardi (MDB), presidente; Érico Vinícius (Novo), relator; e Brandel Junior (Republicanos), membro.

Após meses de instrução processual, coleta de provas, oitivas de testemunhas e apresentação da defesa, o relatório final foi levado ao plenário, que decidiu pela cassação do mandato.

A defesa sustenta que ocorreram irregularidades durante a tramitação e afirma que buscará na Justiça a declaração de nulidade do processo.

A entrevista

Folha do Estado SC – Qual foi sua reação ao resultado da votação que culminou na cassação do seu mandato por 13 votos?

Cleiton Profeta: Minha reação foi de serenidade. Não fui surpreendido pelo resultado, porque esses 13 vereadores apenas confirmaram aquilo que denuncio há muito tempo: a submissão de parte do Legislativo ao Executivo. A votação serviu para evidenciar essa realidade diante da população.

Folha do Estado SC – O senhor considera que o processo conduzido pela Câmara de Joinville respeitou plenamente o direito à ampla defesa e ao contraditório? Por quê?

Cleiton Profeta: Não considero, e minha equipe jurídica também não. Existem diversas irregularidades processuais e protocolares que comprometem a validade do procedimento. Um exemplo é o depoimento da deputada Ana Campagnolo, cujo áudio apresentou falhas e trechos inaudíveis. Foi garantido que o conteúdo seria integralmente transcrito, o que não ocorreu. Além disso, outras deliberações da própria comissão não foram cumpridas. Já existem dois mandados de segurança relacionados ao caso, e novas medidas judiciais serão adotadas para buscar a declaração de nulidade do processo.


Folha do Estado SC – Sua defesa alegou parcialidade na condução da Comissão Processante. Quais são os principais elementos que sustentam essa tese?

Cleiton Profeta: Há diversos elementos que demonstram a parcialidade. O principal deles é o fato de o relator, vereador Érico Vinícius, pertencer ao mesmo partido que protocolou o pedido de cassação e ter votado pela admissibilidade do processo. Além disso, ele também se declarou ofendido por fatos utilizados como fundamento da denúncia. Na prática, acumulou funções incompatíveis entre si, participando do processo em diferentes posições que comprometem a necessária imparcialidade.

Folha do Estado SC – As acusações envolvem quebra de decoro parlamentar, incluindo supostas ofensas e tumultos em plenário. Como o senhor responde a essas acusações?

Cleiton Profeta: As situações apontadas pela acusação precisam ser analisadas dentro do contexto em que ocorreram. Em diversos episódios, minhas manifestações foram respostas a ataques, acusações ou atitudes que considero igualmente graves. O que houve foram debates políticos acalorados, algo comum na atividade parlamentar, e não condutas que justificassem uma medida extrema como a cassação de um mandato legitimamente conquistado nas urnas.

Folha do Estado SC – O senhor acredita que a cassação teve motivação política? Quais fatos o levam a essa conclusão?

Cleiton Profeta: Sim. Não apenas eu acredito nisso, como essa percepção é compartilhada por todos que acompanharam os bastidores do processo. Houve uma forte articulação política para garantir o resultado desejado. As pressões exercidas durante a tramitação eram conhecidas dentro da própria Câmara e ajudam a explicar o desfecho da votação.


Folha do Estado SC – Como avalia a postura dos vereadores que votaram pela cassação e dos que votaram pela sua absolvição?

Cleiton Profeta: Os vereadores que votaram pela absolvição demonstraram independência, coragem e compromisso com a própria consciência. Sei que muitos sofreram pressão para aderir à cassação. Já aqueles que votaram pela condenação, especialmente os diretamente envolvidos no processo, optaram por atender interesses políticos em vez de defender a imparcialidade e a justiça.

Folha do Estado SC – O senhor acredita que sua forma direta e combativa de atuação contribuiu para o desgaste com parte do Legislativo?

Cleiton Profeta: Sem dúvida. Minha atuação sempre foi marcada pela fiscalização firme e pela disposição de enfrentar interesses estabelecidos. Isso naturalmente gera desgaste com quem está acostumado a uma oposição mais moderada ou acomodada. Ainda assim, não me arrependo. Fui eleito justamente para agir dessa forma e faria tudo novamente.

Folha do Estado SC – Qual foi, na sua avaliação, a maior conquista do seu mandato que gostaria de deixar registrada para a população de Joinville?

Cleiton Profeta: Tivemos inúmeras conquistas, mas destaco especialmente as fiscalizações que ajudaram a expor falhas graves na saúde pública e contribuíram para evitar situações de negligência. Também considero importante ter levado ao conhecimento da população questões que muitas vezes permaneciam restritas aos bastidores da política.


Folha do Estado SC – Olhando para trás, existe alguma atitude ou episódio que o senhor faria de maneira diferente?

Cleiton Profeta: Se pudesse voltar atrás, teria tomado mais cuidados em determinadas situações, especialmente em reuniões sem registros ou gravações. Quando os fatos ficam sem documentação, abre-se espaço para versões conflitantes e narrativas políticas. Esse é um aprendizado que levo para a vida.

Folha do Estado SC – Quais medidas judiciais serão adotadas a partir de agora e quais são as expectativas de reverter a decisão?

Cleiton Profeta: Nossa equipe jurídica continuará buscando o reconhecimento das nulidades que ocorreram ao longo do processo. Já existem ações em andamento e outras serão protocoladas. Tenho confiança de que o Judiciário analisará os fatos com imparcialidade e corrigirá as irregularidades cometidas.

Folha do Estado SC – Caso a Justiça mantenha a cassação, o senhor pretende continuar atuando politicamente?

Cleiton Profeta: Se a decisão for mantida, fico oito anos inelegível. Ainda assim, independentemente de ocupar cargo público ou não, continuarei acompanhando a política de Joinville, denunciando irregularidades e exercendo meu papel como cidadão.

Folha do Estado SC – Qual mensagem o senhor deixa para os eleitores que confiaram em seu mandato e acompanharam esse processo até o fim?

Cleiton Profeta: Minha mensagem é de agradecimento. Continuem defendendo aquilo em que acreditam e não permitam que a verdade seja sufocada. O apoio que recebi demonstra que existe uma parcela significativa da população que valoriza a fiscalização, a transparência e a coragem de enfrentar os poderosos.


Folha do Estado SC – Se tivesse hoje a oportunidade de falar diretamente aos vereadores que votaram pela cassação e à população de Joinville, qual seria sua mensagem final?

Cleiton Profeta: À população, digo que continuarei defendendo os mesmos princípios que me trouxeram até aqui. Aos vereadores que votaram pela cassação, deixo a responsabilidade de responder perante a própria consciência e perante os eleitores pelas decisões que tomaram. A história e o tempo costumam julgar melhor do que qualquer comissão processante.

O que acontece agora?

Com a cassação, a vaga deverá ser ocupada pelo suplente Cassiano Ucker (PL), que obteve 3.017 votos nas eleições municipais de 2024.

Enquanto isso, a defesa do ex-vereador prepara novas medidas judiciais para tentar anular o processo e reverter os efeitos da decisão aprovada pelo plenário da Câmara.

Nota da Redação

A Folha do Estado SC mantém espaço aberto para manifestação da Câmara de Vereadores de Joinville, dos integrantes da Comissão Processante e dos parlamentares citados nesta entrevista, em respeito ao contraditório, à ampla informação e aos princípios do jornalismo profissional.

José Santana
Jornalista MTB3982/SC | pós graduando em jornalismo Investigativo | bacharel em Gestão Pública Administrativa | Pós-Graduado em Direito Constitucional | Editor-Chefe do Portal Folha do Estado SC, onde atua na produção de reportagens especiais, análises políticas, cobertura jurídica e jornalismo investigativo, com foco na informação de interesse público e no fortalecimento da cidadania.

Redação
Redaçãohttps://www.instagram.com/folhadoestadosc/
Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Ultima notícia
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
[bws_pdfprint display='pdf']
Related News