CONTO: A melhor vingança é ser feliz

Se não tiver amor próprio, o relacionamento nunca dará 100% certo

Dia desses fui tomar café com uma amiga que tinha acabado de findar seu casamento. Vou chamá-la de Olívia para preservar seu nome verdadeiro e sua história, que ela me permitiu contar. Eu acompanhei um tanto de perto aquele relacionamento, que tinha as tais red flags desde o início. Mas que, na esperança de uma mudança do parceiro, minha amiga persistiu na união. 

Foram alguns anos de gaslighting (iluminação a gás), manipulações e invertidas, das quais a Oli sempre saía como culpada. Ela, me disse, achava que com boas conversas, tudo poderia se ajeitar. Na prática, isso tudo virava ilusão.  Nos diálogos, os fatos que a incomodavam poderiam até serem cristalinos, mas o companheiro fazia a história ficar completamente turva. Oli, que dava muito e recebia pouco, ganhava uma plaquinha de ingrata toda vez que cobrava o mínimo.

É quase impossível não se indignar com os relatos das diversas situações que ela vivenciou, mas que contava com serenidade. “Como pode você estar assim hoje, amiga, tão bem?”, perguntei. Ao que ela me respondeu (e me ensinou, pelo exemplo): “Débora, eu era uma co-dependente emocional. Então eu vivia a minha vida esperando que ele fosse melhorar. Até que eu entendi que isso não iria acontecer. Todas as suas promessas de mudança não se sustentaram. E, no fim das contas, o que o relacionamento mais me mostrou é que eu não tinha nenhum amor próprio”, disse.

O curioso é que Olívia é uma mulher linda, inteligente, bem-sucedida e muito simpática. Cheia dos atributos sociais que a “chancelam” como um partidão, além de ser aquela pessoa que você adora ter por perto. Ela já era tudo isso no início do namoro, mas não conseguia ver que merecia alguém à altura do seu amor, da sua bondade e dedicação. “Agora, finalmente, eu aprendi”, ela disse, com um profundo olhar de gratidão pelo que viveu.

Relações como a de Olívia outras muitas pessoas passam diariamente. Anos, décadas e até uma vida inteira se vão embora em relacionamentos tóxicos como aquele. A sorte dela, como disse, foi ter aprendido rápido. Perguntei se ela ainda sentia raiva por todos os episódios em que me relatou. “Sabe que não? No fim das contas, meu ex-marido foi um grande mestre. Talvez eu levasse uma vida toda para aprender tudo o que eu aprendi nesse intensivão”, ela falou. “Hoje, estou tão mais feliz sabendo que posso ser eu mesma, reconhecendo o meu valor e tudo o que eu tenho de bom, que se eu fosse pensar em vingança, diria que a melhor vingança é se ocupar da própria vida e ser feliz”, ela disse com um sorriso que fazia jus às suas palavras.

Infelizmente, vivemos em uma sociedade machista e misógina, haja vista tantos casos de feminicídio tratados como “crimes passionais”. Nem todas as mulheres conseguem sair, e essa news não é de forma alguma um jeito de responsabilizar as vítimas pelo que sofreram. É, na verdade, um jeito de olharmos para dentro, em nossas vidas, e buscar compreender onde a falta do amor próprio nos causa estragos.

Reconhecer e honrar a quem somos fortalece nossa percepção e intuição, dando limites até onde o outro pode ir é sustentar relações saudáveis – e identificar bem mais depressa aquelas com maior potencial disfuncional. Sabendo quem nós somos e o que merecemos fica mais difícil tolerar abusos como os que a Oli passou e, gentilmente, permitiu que eu dividisse aqui com você.

Para 2026, talvez eu queira apenas uma coisa: me amar mais. Me honrar mais, valorizando quem eu sou. Talvez todas as outras grandes metas possam florescer a partir daí.

Uma semana de muito amor para você!

Débora Zanelato (@deborazanelato)

Diretora de Conteúdo da Vida Simples

 

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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