Editorial 20 de Setembro: uma história que virou identidade

Mais do que uma data no calendário, o 20 de Setembro representa memória, resistência e uma cultura que ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Sul

Há datas que pertencem ao calendário. E há datas que pertencem à alma de um povo. O 20 de Setembro é uma delas. Neste domingo, os gaúchos voltam a vestir a bombacha, colocar o lenço no pescoço, preparar o chimarrão, reunir a família e os amigos em torno do fogo de chão e celebrar uma das páginas mais marcantes da história do Rio Grande do Sul: o início da Revolução Farroupilha, também conhecida como Guerra dos Farrapos, encerrada em 20 de setembro de 1835. A própria Revolução Farroupilha que a certa altura durante o conflito chegou a alcançar o território catarinense.

Mas é importante lembrar: antes de ser festa, o 20 de Setembro foi conflito, foi disputa política, foi disputa econômica e militar que marcou profundamente a história do Brasil Imperial. A revolução começou quando tropas farroupilhas entraram em Porto Alegre, lideradas por Bento Gonçalves, em um movimento alimentado por insatisfações com o governo imperial, entre elas questões tributárias que atingiam fortemente a economia gaúcha, especialmente a produção de charque. O conflito se prolongaria por quase dez anos, até 1845, tornando-se a mais longa revolta civil do período imperial brasileiro.

Ao longo daquela década, surgiram personagens que entrariam definitivamente para a história do Sul do Brasil: Bento Gonçalves, David Canabarro, Antônio de Souza Netto, Giuseppe Garibaldi e Anita Garibaldi, entre tantos outros.

Também nasceu, em meio à guerra, a República Rio-Grandense, com sua capital inicialmente na cidade de Piratini. O movimento assumiu, em determinados momentos, caráter republicano e separatista, embora suas motivações e objetivos tenham sido diversos e tenham mudado ao longo do conflito.

Uma história que não cabe numa estátua. Com o passar dos anos, a Revolução Farroupilha deixou de ser apenas um episódio militar do século XIX e passou a ocupar um espaço central na construção da identidade cultural gaúcha. É daí que surge uma das características mais extraordinárias do Rio Grande do Sul: a capacidade de transformar história em tradição.

A Semana Farroupilha, os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), os desfiles, as danças, a música, a culinária, o churrasco, o chimarrão, os acampamentos e a indumentária tradicional fizeram e continuam fazendo com que aquela memória ultrapassasse gerações.

O próprio Governo do Rio Grande do Sul define os Festejos Farroupilhas como uma celebração que envolve CTGs, Movimento Tradicionalista Gaúcho e diferentes segmentos da sociedade. O 20 de Setembro é feriado estadual desde 1995. Mas existe algo ainda maior nessa história. A cultura gaúcha não ficou confinada às fronteiras do Rio Grande do Sul.

DO PAMPA PARA SANTA CATARINA

Em Santa Catarina, a presença da cultura gaúcha pode ser encontrada em praticamente todas as regiões. Dos municípios do Oeste e Meio-Oeste ao Litoral, dos grandes centros urbanos às pequenas comunidades, os costumes trazidos por famílias rio-grandenses que para cá vieram, passaram a conviver e a se integrar com as tradições catarinenses.

E isso é particularmente visível em cidades como Balneário Camboriú, Itapema, Itajaí, Porto Belo, Bombinhas, Navegantes, Penha, Balneário Piçarras e tantas outras do litoral norte ao litoral sul, do leste a oeste, onde milhares de pessoas vindas do Rio Grande do Sul aportaram, construíram suas vidas, suas famílias e seus negócios.

Em muitos desses lugares, setembro também ganha cheiro de churrasco, som de música tradicionalista, rodas de chimarrão, dança e encontros de CTGs. É a demonstração de que cultura não conhece fronteiras administrativas. O mapa pode separar estados, mas a história aproxima pessoas.

E essa aproximação entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul possui raízes ainda mais antigas. Durante a própria Revolução Farroupilha, o movimento ultrapassou as fronteiras da então província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, os ‘farroupilhos’ chegaram a proclamar, em 1839, a chamada República Juliana, com participação decisiva de Giuseppe e Anita Garibaldi.

MUITO ALÉM DA FESTA

Por tudo isso, celebrar o 20 de Setembro não significa simplesmente reproduzir costumes. Significa preservar memória. E preservar memória exige também conhecer a história em toda a sua complexidade. A Revolução Farroupilha foi liderada predominantemente por setores das elites estancieiras e militares, mas contou também com a participação de diferentes grupos sociais, incluindo combatentes negros, entre eles os conhecidos ‘Lanceiros Negros’.

Por isso, o verdadeiro respeito pela história não está em transformar o passado em uma narrativa simplificada. Está em conhecê-lo, estudá-lo, compreender suas contradições e reconhecer todos aqueles que participaram dele. Uma sociedade madura não precisa escolher entre tradição e conhecimento histórico. Pode e deve ter os dois.

UMA CULTURA QUE SE ESPALHOU PELO BRASIL

Talvez uma das maiores demonstrações da força da identidade gaúcha esteja justamente no fato de que o tradicionalismo não desapareceu quando milhares de gaúchos deixaram sua terra natal. Pelo contrário. Eles levaram consigo a música, os costumes, o vocabulário, a culinária, o chimarrão, o churrasco, as danças e, principalmente, o sentimento de pertencimento. Hoje existem manifestações da cultura gaúcha em diferentes regiões brasileiras. Em Santa Catarina, essa presença é particularmente forte. E isso deve ser visto não como uma substituição da cultura catarinense, mas como um encontro de culturas que ajudou a formar o próprio mosaico social do Estado.

O SIGNIFICADO DO 20 DE SETEMBRO

Quase dois séculos depois do início da Guerra dos Farrapos, talvez a maior lição do ‘20 de Setembro’ seja justamente a força de sua identidade. Um povo que conhece suas raízes compreende melhor o seu presente e pode construir com mais consciência o seu futuro.

Neste domingo, quando os gaúchos celebrarem o 20 de Setembro, não estarão apenas lembrando uma guerra iniciada em 1835. Estarão celebrando uma história que atravessou gerações.

E quando um gaúcho acender o fogo de chão em Santa Catarina, preparar seu chimarrão em Balneário Camboriú, reunir amigos em Itapema, vestir sua pilcha em Itajaí, participar do evento em Camboriú, ou participar de um encontro tradicionalista em qualquer outra cidade catarinense, estará mostrando que determinadas fronteiras existem apenas no mapa. Porque a cultura viaja. A tradição atravessa gerações. Mas a história, quando preservada, continua viva.

Neste 20 de Setembro, portanto, que se celebre o Rio Grande do Sul, sua história e suas tradições, mas que também se reconheça a contribuição de todos aqueles que, longe ou perto da terra natal, ajudaram a manter viva a chama da cultura gaúcha.

Viva o 20 de Setembro! Viva a memória! Viva a cultura! E viva a amizade histórica entre gaúchos e catarinenses!

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Da Redação

Folha do Estado SC

 

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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