Uma observação que merece ser vista e revista pelo governo e pelos setores produtivos
Durante muitos anos, o agronegócio brasileiro foi apresentado – e com razão – como uma das grandes locomotivas da economia nacional. O campo brasileiro tornou-se uma potência mundial na produção de soja, milho, carnes, café, açúcar e tantos outros produtos. Modernizou-se, incorporou tecnologia, aumentou a produtividade e conquistou mercados em praticamente todos os continentes. Mas também existe outra face dessa história que começa a preocupar o homem do campo: o endividamento do agronegócio.
Nos últimos anos, produtores rurais, empresas e grupos ligados ao setor acumularam compromissos financeiros elevados. E agora, diante de juros altos, custos de produção pressionados, problemas climáticos e oscilações nos preços das commodities, uma parcela desse endividamento começa a cobrar seu preço.
É nesse cenário que surgem notícias sobre uma dívida da ordem de R$ 48 bilhões e sobre propriedades rurais que estariam sendo executadas ou utilizadas para quitar compromissos com instituições financeiras. É preciso, no entanto, separar informação de exagero.
Os R$ 40 bilhões não devem ser confundidos automaticamente com o valor das fazendas que já passaram para as mãos dos bancos. O endividamento do agronegócio brasileiro é muito mais amplo e envolve diferentes tipos de produtores, empresas, cooperativas e operações financeiras. Existem propriedades dadas como garantia, mas isso não significa que todas elas tenham sido definitivamente transferidas aos credores. O problema, porém, é real e merece atenção. Quando o crédito deixa de ser solução e vira problema.
Produzir no campo exige muito dinheiro. Antes mesmo de colocar a semente na terra, o produtor precisa comprar fertilizantes, defensivos, sementes, combustível, contratar máquinas, mão de obra, transporte e armazenagem. Muitas vezes, precisa financiar praticamente toda a operação esperando que a colheita futura seja suficiente para pagar a conta. Durante períodos de preços elevados e boas safras, esse modelo funciona. Mas quando uma sequência de problemas aparece, a matemática muda.
Uma estiagem severa, uma enchente, uma quebra de produtividade, uma queda no preço internacional da commodity ou simplesmente o aumento dos juros podem transformar uma dívida administrável em um problema gigantesco. E é exatamente isso que vem acontecendo com parte do setor.
Não podemos esquecer que uma propriedade rural frequentemente representa a principal garantia de uma operação de crédito. Quando o produtor não consegue honrar o financiamento e não há acordo para a renegociação, o imóvel pode acabar sendo executado. É nesse ponto que aparece uma das imagens mais preocupantes dessa crise: o produtor que passou décadas construindo seu patrimônio pode correr o risco de perder a própria terra para pagar dívidas.
Não se trata apenas de uma questão financeira. A terra representa patrimônio familiar, história, trabalho e, muitas vezes, o resultado de várias gerações. Por isso, quando uma propriedade rural entra em processo de execução, e não estamos falando simplesmente de um número em uma planilha bancária. Estamos falando da vida de uma família.
Mas seria um erro colocar toda a responsabilidade sobre os produtores. Os bancos também estão diante de uma situação delicada. Quando emprestam dinheiro para o setor rural, assumem riscos. Se a inadimplência cresce, aumenta também o risco de perdas para o sistema financeiro. E existe um efeito perverso: quanto maior o risco percebido, mais seletivo fica o crédito. O produtor que precisa de dinheiro para plantar a próxima safra pode encontrar justamente o crédito mais caro e mais difícil de conseguir.
Forma-se, então, um círculo preocupante: dívida alta, juros elevados, menor disponibilidade de crédito, dificuldades para produzir, novas dívidas e, em alguns casos, recuperação judicial ou execução das garantias.
Mas não é apenas uma crise do produtor. O agronegócio brasileiro é uma gigantesca cadeia econômica. Quando o produtor enfrenta dificuldades, também podem sofrer as revendas de máquinas, os fornecedores de insumos, transportadoras, cooperativas, frigoríficos, armazéns e empresas que dependem diretamente da atividade rural.
E existe uma consequência ainda maior. Se a crise se prolongar e atingir um número significativo de produtores, poderá afetar a produção e, consequentemente, afetar os preços dos alimentos. É por isso que o endividamento rural precisa ser tratado como uma questão econômica nacional, e não apenas como um problema particular de quem tomou dinheiro emprestado.
Até onde deve ir a ajuda do governo? Aqui está talvez a questão mais difícil. Diante de uma crise dessa dimensão, o governo pode ser pressionado a criar programas de renegociação, alongamento de prazos, redução de juros e mecanismos de proteção para produtores atingidos por eventos climáticos ou por situações extraordinárias.
Em determinadas circunstâncias, isso pode ser necessário. Mas existe uma linha que não pode ser ignorada. O dinheiro público não pode ser utilizado indefinidamente para cobrir decisões privadas mal planejadas. É preciso ajudar quem realmente foi atingido por fatores que fugiram ao seu controle, sem transformar a renegociação permanente de dívidas em uma espécie de prêmio para quem assumiu riscos excessivos.
Da mesma forma, o produtor precisa ter acesso a instrumentos financeiros mais seguros, capazes de proteger sua atividade contra oscilações de preços, clima e câmbio, inclusive internacionais.
O agronegócio brasileiro é estratégico demais para ser tratado com discursos simplistas. Não podemos demonizar o produtor que tomou crédito para investir e produzir. Tampouco podemos ignorar que crédito é uma obrigação que precisa ser paga. O que o Brasil precisa é encontrar um ponto de equilíbrio.
Precisamos proteger a produção sem colocar uma conta interminável sobre os contribuintes. Precisamos fortalecer o crédito rural, mas também melhorar os mecanismos de seguro, planejamento financeiro e proteção contra os riscos climáticos e de mercado.
O campo brasileiro continuará sendo fundamental para a economia nacional. Mas uma potência agrícola também precisa ter condições financeiras para continuar produzindo. Porque, no final das contas, quando uma fazenda quebra, não desaparece apenas uma empresa. Desaparecem empregos, renda, arrecadação, patrimônio e capacidade produtiva. E quando milhares de produtores enfrentam dificuldades ao mesmo tempo, a crise deixa de ser exclusivamente deles.
A dívida do Agro é, portanto, um sinal de alerta para o Brasil. O país não pode esperar que a conta chegue à mesa do consumidor para descobrir que o problema começou muito antes, dentro das propriedades rurais. O campo precisa de crédito, tecnologia e investimento.
Mas, acima de tudo, precisa de previsibilidade, responsabilidade financeira e políticas capazes de garantir que quem produz hoje tenha condições de continuar produzindo amanhã. Porque o Brasil pode até ter uma das agriculturas mais competitivas do planeta. Mas nenhuma potência agrícola sobrevive se aqueles que colocam a semente na terra perderem a capacidade de permanecer nela.
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Da Redação
Folha do Estado SC


























