Teriam escolhido Paulinho da Força, ou ‘Paulinho dá uma força’, para relator?
A recente movimentação no Congresso em torno da chamada PEC da Blindagem e do PL da Anistia recoloca em evidência um velho dilema da política brasileira: quem ganha quando se tenta legislar em causa própria?
A escolha de Paulinho da Força como relator não foi casual. O deputado foi indicado pelo líder do Republicanos, Hugo Motta, sob o argumento de que ele teria “equilíbrio” para conduzir um debate tão sensível. Mas equilíbrio para quem? Para a sociedade, que clama por transparência e responsabilidade, ou para o jogo de forças internas em Brasília, onde acordos de bastidores definem muito mais que o interesse público?
Paulinho não é um nome neutro. Seu histórico judicial, com condenações revertidas pelo STF e acusações de improbidade, levanta dúvidas sobre se ele representa de fato o espírito de transparência que uma proposta dessa magnitude exige. Ao contrário, a escolha soa como mais um aceno do centrão para manter o controle da narrativa e negociar com os dois extremos: de um lado, a pressão de parlamentares bolsonaristas que pedem anistia ampla; do outro, a resistência de setores do Judiciário e de partidos mais alinhados ao governo.
Além disso, o histórico judicial de Paulinho da Força adiciona mais complexidade ao cenário. Ele foi condenado em 2011 por improbidade administrativa, no caso da compra superfaturada da Fazenda Ceres, e posteriormente sentenciado em 2020 pelo STF por lavagem de dinheiro e associação criminosa, embora essa última condenação tenha sido revertida em 2023. Esses processos não apenas mancham sua imagem pública, como levantam questionamentos sobre sua capacidade de conduzir um projeto tão delicado, aumentando a percepção de que interesses políticos e pessoais podem se sobrepor ao interesse público.
A repercussão imediata nas redes sociais expôs a rejeição popular. Pessoas de diferentes espectros políticos – da direita à esquerda – se uniram em uma avalanche de críticas, taxando a proposta de “PEC da Bandidagem”. Essa rara convergência de vozes adversárias sinaliza não apenas indignação, mas também o risco de que a agenda parlamentar se descole de forma irreversível do sentimento da sociedade.
O STF paira como sombra nesse processo. Qualquer texto aprovado que se desvie do limite constitucional pode ser questionado e derrubado na Corte. Nesse sentido, Paulinho – com sua conhecida interlocução com ministros como Alexandre de Moraes – aparece como figura de “mediação”, alguém capaz de construir uma versão do projeto que passe pela Câmara sem morrer no Judiciário.
Mas há uma questão de fundo que não pode ser esquecida: o Parlamento existe para servir à Nação, não a seus próprios interesses. Blindar parlamentares contra investigações e, ao mesmo tempo, discutir anistia para atos que atacaram a democracia, coloca em xeque a credibilidade da Casa e a confiança do eleitorado.
A indicação de Paulinho pode até facilitar acordos de ocasião, mas reforça a percepção de que o Congresso insiste em se distanciar das ruas. E, em tempos de descrédito nas instituições, essa distância pode custar caro – não apenas para os parlamentares, mas para toda a democracia brasileira.
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Da redação
Especial para a Folha do Estado






















