A política é dinâmica. Ideias evoluem, diagnósticos mudam e lideranças podem rever posições diante das transformações da sociedade. O que não pode mudar é a obrigação de prestar contas à população sobre essas mudanças.
Durante o Fórum Rumos do Brasil, realizado em São Paulo no dia 15 de junho de 2026, o senador Flávio Bolsonaro surpreendeu parte de seus apoiadores ao defender a manutenção do Bolsa Família, apoiar a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e reconhecer que a relação do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro com a imprensa foi equivocada.
As declarações representam uma inflexão significativa no discurso de um dos principais representantes do bolsonarismo. Não se trata de uma simples mudança de tom, mas de posicionamentos sobre temas que, durante anos, foram alvo de críticas por setores importantes da direita brasileira.
O Bolsa Família, frequentemente associado por adversários a políticas assistencialistas, passou a ser tratado pelo senador como um direito consolidado dos brasileiros mais vulneráveis. A defesa da ampliação da proteção às famílias beneficiárias que ingressam no mercado de trabalho também evidencia uma visão mais pragmática sobre políticas de transferência de renda.
Da mesma forma, o apoio à isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil aproxima seu discurso de uma proposta amplamente debatida no cenário nacional e que encontra respaldo em diversos setores da economia e da sociedade.
Talvez a declaração mais simbólica tenha sido o reconhecimento de que a relação conflituosa entre o governo Bolsonaro e a imprensa foi um erro. Em tempos de polarização, reconhecer equívocos deveria ser visto como sinal de maturidade política. Afinal, a liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas nem uma concessão dos governantes, mas um direito humano universal e um dos pilares fundamentais da democracia. Quando a imprensa é atacada, não é apenas o jornalismo que sofre, mas a própria sociedade, que perde parte de sua capacidade de fiscalizar o poder, debater ideias e exercer plenamente sua cidadania.
Há, contudo, um aspecto adicional que merece reflexão. A experiência recente demonstra que a divisão tradicional entre direita e programas sociais vem perdendo força no Brasil. Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello, uma das principais lideranças conservadoras do país, adotou uma postura republicana diante das políticas públicas de inclusão social. Sua gestão lançou programas como o Casa Catarina, considerado o maior programa habitacional da história do Estado, e o Universidade Gratuita, iniciativa que ampliou o acesso ao ensino superior para milhares de estudantes catarinenses.
Historicamente, programas dessa natureza eram vistos com reservas por parcelas da direita brasileira. Hoje, porém, a realidade demonstra que políticas sociais bem estruturadas podem coexistir com responsabilidade fiscal, desenvolvimento econômico e geração de oportunidades. O debate deixou de ser sobre a existência ou não desses programas e passou a ser sobre sua eficiência, transparência e alcance social.
Há ainda uma lição que o debate brasileiro precisa absorver. Em grande parte dos países desenvolvidos, programas de transferência de renda, auxílio habitacional, bolsas de estudo e mecanismos de proteção social deixaram de ser uma questão ideológica para se tornarem políticas permanentes de Estado.
Países como Canadá, Suíça e Estados Unidos mantêm diferentes modalidades de assistência social, subsídios habitacionais e programas de apoio à educação, não como instrumentos de disputa partidária, mas como ferramentas de desenvolvimento econômico, redução das desigualdades e fortalecimento da mobilidade social. Nessas nações, a discussão concentra-se na eficiência e nos resultados das políticas públicas, e não em sua classificação ideológica.
O Brasil parece caminhar na mesma direção. Governos de diferentes orientações políticas passaram a compreender que crescimento econômico e proteção social não são conceitos antagônicos. Pelo contrário, quando bem planejados, podem ser complementares e produzir benefícios duradouros para a sociedade.
O ponto central, contudo, não está nas mudanças em si. Está na necessidade de transparência sobre elas. O eleitor tem o direito de compreender se está diante de uma evolução legítima de pensamento ou de uma adaptação estratégica motivada pelo ambiente eleitoral.
Mudar de opinião não é problema. O problema surge quando não há explicação para a mudança. A democracia exige memória, coerência e honestidade intelectual.
Se novas circunstâncias levaram à revisão de conceitos, que isso seja dito com clareza. Se os desafios do país exigem novas soluções, que elas sejam apresentadas de forma transparente.
A experiência internacional demonstra que programas como aluguel social, renda mínima e políticas de inclusão educacional são tratados em diversos países desenvolvidos como políticas de Estado. O debate concentra-se menos na ideologia e mais na capacidade dessas iniciativas de promover desenvolvimento econômico, distribuição de renda e oportunidades para a população.
No fim, a questão não é mudar de posição, mas assumir com responsabilidade as razões da mudança. A confiança pública se constrói com transparência, coerência e compromisso com a verdade — valores indispensáveis para quem pretende governar e representar a sociedade.
A política amadurece quando abandona preconceitos ideológicos e passa a buscar soluções concretas para os problemas reais da população. Se a direita brasileira passa a reconhecer a importância de programas sociais eficientes e sustentáveis, isso não deve ser visto como contradição, mas como sinal de evolução do debate público. O que a sociedade espera é que essas mudanças sejam guiadas por convicções e resultados, e não apenas pelas conveniências do momento.
“A liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas, mas um direito humano universal e um dos pilares fundamentais da democracia.”
Da Redação | Folha do Estado SC





















