Essa prática vem ocorrendo em várias igrejas do país
O púlpito não pode ser confundido com palanque. Essa talvez seja uma das reflexões mais urgentes dos nossos tempos, especialmente diante do crescimento de um fenômeno preocupante dentro de muitas igrejas evangélicas brasileiras. Ou seja, a transformação de templos religiosos em ambientes de campanha política disfarçada de culto espiritual.
É evidente que a fé possui relação com valores morais, sociais e até mesmo entre os cidadãos. O cristão, como qualquer outra pessoa, tem direito de participar da vida política, formar opinião e escolher seus representantes. Porém, o problema começa quando líderes religiosos ultrapassam a linha da orientação espiritual e passam a utilizar a estrutura da igreja para promover candidatos, partidos ou interesses eleitorais específicos.
Em muitos casos, o que deveria ser um espaço de oração, acolhimento e evangelização transforma-se em verdadeiros comícios. Políticos sobem ao altar, recebem homenagens públicas, fazem discursos, pedem apoio velado, na maioria das vezes explícito, enquanto milhares de fiéis assistem sem perceber que estão diante de uma perigosa mistura entre a fé e o poder. Isso é grave.
A igreja possui uma missão espiritual. Sua essência não está em eleger deputados, prefeitos, governadores ou presidentes. Sua função é anunciar princípios, promover valores cristãos, ajudar os necessitados, fortalecer famílias e levar esperança às pessoas. Quando o altar passa a servir interesses políticos, o Evangelho perde espaço para estratégias eleitorais.
O mais preocupante é que muitos líderes religiosos acabam criando verdadeiros “currais eleitorais”, onde o fiel se sente pressionado moralmente a votar em determinado candidato para não parecer desobediente à liderança espiritual. Isso fere não apenas a liberdade democrática, mas também a consciência individual de cada cristão. A fé não pode ser instrumento de manipulação política.
Outro ponto alarmante é a seletividade moral que muitas vezes acompanha esse processo. Alguns líderes condenam determinados comportamentos em nome da Bíblia, mas silenciam diante de práticas políticas questionáveis quando cometidas por aliados ideológicos. A coerência espiritual acaba sendo sacrificada pela conveniência política. Esse resultado é devastador.
As igrejas começam a se dividir internamente. Irmãos passam a enxergar irmãos como adversários políticos. O ambiente espiritual perde a leveza e ganha tensão partidária. E pior: muitos políticos utilizam a igreja apenas como plataforma eleitoral temporária. Terminada a eleição, eles desaparecem das comunidades evangélicas, esquecendo das promessas feitas diante dos púlpitos. É preciso coragem para dizer basta.
Não se trata de proibir a participação política dos cristãos ou impedir que líderes religiosos tenham opinião. Trata-se de preservar a integridade da igreja. Uma coisa é orientar biblicamente sobre valores éticos e sociais. Outra completamente diferente é transformar cultos em campanhas eleitorais.
A legislação brasileira já estabelece limites claros sobre propaganda eleitoral em ambientes religiosos. Mas, além da lei, existe uma questão moral e espiritual muito mais profunda: o altar pertence a Deus, não aos projetos de poder humanos.
O Brasil precisa urgentemente redescobrir a separação saudável entre missão espiritual e interesses eleitorais. Igrejas fortes não são aquelas que elegem mais políticos, mas as que transformam vidas com autenticidade, humildade e verdade. Quando o púlpito vira palanque, a fé perde sua essência, e a política perde sua dignidade.
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Da Redação
Folha do Estado




























