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Florianópolis: 1º ano da PM de SC sem câmeras corporais tem maior número de mortes cometidas por policiais desde 2019

Crescimento das operações ampliou exposição ao risco em ocorrências, segundo a corporação. Instituição justifica ainda que confrontos ocorrem da resistência de suspeitos e que os policiais atuam com protocolos

Polícia Militar de Santa Catarina — Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom-SC

Santa Catarina registrou 92 mortes provocadas por policiais militares em 2025, o maior número desde 2019. O dado representa um aumento de 24,3% em relação a 2024, quando foram contabilizados 74 óbitos. O crescimento também acontece no primeiro ano completo sem o uso de câmeras corporais pelos agentes. O encerramento do monitoramento foi anunciado em setembro de 2024 pela corporação pioneira no país ao implementar a tecnologia, há seis anos. Ao finalizar o programa, a PM justificou defasagem, falta de manutenção adequada e insuficiência para armazenar as imagens.

Em relação ao aumento da letalidade, a Polícia Militar catarinense justificou que o crescimento superior a 300% nas ações ampliou a exposição ao risco em ocorrências. Afirmou ainda que os confrontos decorrem da resistência de suspeitos às ordens legais e que os policiais atuam dentro dos protocolos.

Em 2025, as 92 mortes corresponderam a uma média aproximada de 0,25 morte por dia, ou seja, uma pessoa morta a cada quatro dias em confrontos com a PM ao longo do último ano.

O Ministério Público (MP) é contrário ao fim do uso do equipamento e pede o retorno do monitoramento. Em uma ação protocolada pela Defensoria Pública do Estado e que segue na Justiça, o órgão defende que as câmeras garantem transparência na atuação policial, controle do uso da força e qualificação das provas.

Coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo Silva, afirmou que a retirada dos equipamentos é um retrocesso, já que as imagens trazem segurança para os próprios policiais.

Para o especialista, o índice de mortes por parte da PM diminuirá quando o Estado entender que o controle da letalidade é prioridade.

– Com inteligência, investigação e tecnologia, você reduz ocorrências de confronto. Esses confrontos não impactam a dinâmica criminal e colocam policiais, vítimas e a população em risco, já que muitas vezes ocorrem em via pública. Essas situações precisam ser evitadas e só devem ocorrer em casos de extrema necessidade – disse.

Já para a antropóloga e especialista em Segurança Pública, Flávia Medeiros, para reduzir a letalidade, são necessárias mudanças estruturais de longo prazo. Entre elas estão a responsabilização cível e criminal do Estado e dos policiais envolvidos.

– Enquanto a segurança pública for entendida como uma racionalidade armamentista, militarizada e de confronto, os números de mortes decorrentes de intervenções policiais irão aumentar – afirmou.

EM 2024, MORTES EM CONFRONTOS ESTAVAM ABAIXO DA MÉDIA NACIONAL

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2025 com dados de 2024, mostra Santa Catarina abaixo da média nacional em mortes por intervenção policial. No estado, 11,5% das Mortes Violentas Intencionais em 2024 foram causadas por ação policial. No país, o índice foi de 14,1%. Os dados de 2025 não foram divulgados.

Em relação ao total de mortes violentas, o estado teve a segunda menor taxa do país em 2024, atrás apenas de São Paulo: Foram 8,5 registros para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional foi de 20,8.

Em números absolutos, foram 685 MVIs no estado. O indicador reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes por intervenção policial.

PERFIL DOS MORTOS PELA PM

O perfil predominante das mortes decorrentes de intervenção policial com a polícia em Santa Catarina, segundo os dados da SPP, é de homens jovens, principalmente entre 21 e 30 anos, mortos à noite ou na madrugada, em municípios urbanos, com frequência associados a ocorrências envolvendo tráfico de drogas ou crimes patrimoniais.

Entre 2019 e 2022, apenas uma mulher morreu em confronto com a polícia, frente a 266 pessoas do gênero masculino. Já entre 2023 e abril de 2026, foram registradas mortes de três mulheres e 277 homens. Isso significa que mais de 98% das mortes envolvem pessoas do sexo masculino.

Quanto à raça ou cor, pessoas brancas são maioria entre as vítimas em Santa Catarina, segundo dados da PM, o que dialoga com a composição demográfica do Estado. Conforme o IBGE, 76,28% dos habitantes do estado se declarou branco no Censo de 2022.

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Por Júlia Venâncio, Caroline Borges, Alexia Elias, g1 SC e NSC

 

 

 

Redação
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