Coluna dominical de Débora Zanelato
Dia desses, estava lembrando de um relacionamento péssimo que eu tive, mas que me trouxe muitos aprendizados. (“Péssimo” é um eufemismo elegante para não dizer abominável e abusivo, rsrs). Em resumo, a dinâmica era simples: eu dava muito e recebia pouco. Só que, toda vez em que eu buscava expor a assimetria na dedicação, começava o gaslighting. Ele distorcia a conversa, invertia a lógica, e, de repente, eu era quem fazia demais só para depois cobrar. Como se o problema não fosse a falta, mas o fato de eu perceber a falta.
Até o dia em que eu respondi: “Sabe o que é? Eu estou pedindo macarronada numa hamburgueria. Essa hamburgueria não tem macarronada. Mas isso não significa que macarronada não exista. Só significa que eu estou pedindo no lugar errado”.
Essa frase ficou comigo.
E aí fui me dando conta de quantas vezes nós fazemos muito, mas recebemos pouco. E, em vez de se retirar, a gente negocia o mínimo. Explica, insiste, flexibiliza, tenta ser mais compreensiva, mais paciente, mais “leve”. Como se o problema fosse o nosso jeito de pedir, e não a incapacidade do outro de dar.
Só que chega uma hora que a gente precisa ter a coragem de admitir: esse lugar não é para mim. Enquanto eu aceitar as migalhas, estarei sempre faminta. Mas parece muito duro olhar para a situação e dizer: “Quer saber? Eu mereço sim mais do que isso, sim! Tchau”!
E sabe por quê? Porque a gente não sustenta o nosso merecimento. A gente não aprendeu a honrar quem nós somos. Ter noção do nosso valor não é arrogância, mas habilidade básica para caminhar pelos relacionamentos, pelas amizades, pelos empregos e por qualquer lugar sem precisar mendigar nada.
Só que sustentar o próprio valor dá trabalho. Porque, às vezes, isso significa ir embora. Significa abrir mão de alguém, de um vínculo, de uma expectativa. Significa encarar o vazio antes de encontrar algo que, de fato, esteja à altura. E nem sempre a gente quer passar por esse intervalo.
E aí, por medo de não encontrar algo ou alguém melhor, a gente vai aceitando cada vez menos. E ficando cada vez mais insatisfeitos. Mais vazios. Aí, a fome se alastra e a gente fica sem energia até para as outras áreas da vida (pode reparar!).
Por não honrar aquilo que somos e o valor daquilo que damos, toleramos que alguém de fora venha e diga qual é o nosso valor. Se encontramos pessoas generosas, dispostas a colocar um espelho em nossa frente e dizer, “enxerga a sua potência”, que alegria. Mas percebe o dano de cruzar com quem não consegue lidar com o seu tamanho e, por isso, te diminui?
O seu valor quem determina é você
É subindo a nossa régua que filtramos o que não nos faz bem. Ter a coragem de bater na porta de cantinas, osterias e trattorias em busca do macarrão que você quer se alimentar é reconhecer que a fome também pode ser uma preciosa bússola, apontando a direção daquilo que verdadeiramente pode nos alimentar.
Ah, e domingo é dia de macarronada na sua casa também? Uma semana cheia de alimento para pensar…
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Com carinho, Débora






























