Rompimento: o que está por trás da nova ofensiva de Trump contra a China?

Presidente americano rompe a “trégua” e volta a taxar os chineses 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu a guerra comercial com a China ao anunciar ontem tarifas extras de 100% sobre produtos do país asiático. Especialistas ouvidos pelo UOL avaliam que a atitude de Trump combina cálculo político interno, disputa tecnológica e tentativa de reafirmar a liderança americana.

O QUE ACONTECEU

Trump rompeu trégua comercial com Pequim. Na sexta-feira, o presidente norte-americano anunciou tarifas extras de 100% sobre produtos chineses e indicou que deve controlar a exportação de softwares “críticos” usados pela China. As medidas passam a valer em 1º de novembro, nove dias antes do prazo combinado entre os países para retomar negociações suspensas.

Decisão veio após a China restringir exportações de minerais estratégicos. Pequim ampliou o controle sobre elementos de metais essenciais para a indústria tecnológica e militar. Agora, empresas precisam de autorização oficial para exportar esses insumos, o que foi interpretado por Washington como uma forma de pressão econômica.

Ofensiva tem componente eleitoral, diz especialista. Segundo Marcus Freitas, professor visitante na China Foreign Affairs University, Trump busca desviar o foco de problemas domésticos, como o risco de paralisação do governo (“shutdown”), e reafirmar sua imagem de “protetor” da indústria americana.

Trump faz “atuação performática” enquanto lida com desgaste interno. “Ele é afetado quando ações do governo ficam paralisadas, o que tem impacto sobre a inflação, a qualidade de vida e a popularidade dele”, explica Freitas. “Ele consegue associar a questão da China à deterioração econômica norte-americana e à situação de exploração dos Estados Unidos em razão da competitividade chinesa.

– Essa retórica serve como tentativa de construir um elemento de coesão nacional, mas principalmente de desvio de atenção.

Marcus Freitas

Medida reforça o discurso protecionista da campanha. Para o professor de Relações Internacionais Paulo Velasco Jr., a decisão é coerente com a linha “America First” que marcou o primeiro mandato de Trump. “Trump tem a China como alvo desde o primeiro mandato. Tarifas e sobretaxas contra o país refletem uma postura natural dele”, explica.

Retórica sustenta o nacionalismo, segundo Velasco. “A questão das terras raras é muito sensível para os Estados Unidos, porque eles não têm grandes reservas. O fato de a China restringir as terras raras é um fator de pressão contra os Estados Unidos. Isso irritou profundamente o Trump”, diz.

  • Isso coloca a economia mundial em cheque pelo peso que ambos os países têm e tudo que eles representam no comércio internacional.

Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais

A China deve reagir com cautela. Para Marcus Freitas, Pequim tende a adotar uma resposta assimétrica, evitando gestos impulsivos. “Trump vai bater mais do que Pequim vai reagir”, avalia. “Mas a China vai agir estrategicamente, estimulando inovação doméstica e autossuficiência, em vez de partir para um confronto direto.”

Mercados globais reagiram com instabilidade. A decisão de Trump provocou alta do dólar e queda nas bolsas, destaca Paulo Velasco. Na sexta, a moeda americana fechou em alta de 2,38% no Brasil, cotada a R$ 5,5031.

TERRAS RARAS

Minerais estratégicos estão no centro da disputa. As chamadas terras raras são um grupo de 17 minerais usados na fabricação de produtos tecnológicos. A China domina a maior parte da produção e do refino mundial. “A geopolítica do século 21 é a das terras raras”, explica o cientista político Pedro Costa Jr.

Dependência americana preocupa a Casa Branca. “A China tem 48% das reservas de terras raras do mundo, e os Estados Unidos têm apenas 2%. Juntos, somam 50%”, diz Costa Jr. “O Brasil é a segunda maior reserva, com 23%. A geopolítica do século 21 é a da disputa por terras raras”.

– Os mísseis que os Estados Unidos disparam precisam dessa tecnologia. E a China não só tem a maior reserva do mundo, de longe, como detém praticamente o monopólio da cadeia de terras raras.

Pedro Costa Jr

Minerais são essenciais para indústria bélica. Eles são usados em sistemas de defesa, sensores, radares e mísseis guiados. A limitação imposta por Pequim afeta diretamente empresas norte-americanas de tecnologia e defesa, que dependem desses minerais e costumam ter queda no valor de mercado sempre que há risco de desabastecimento.

Outros países podem sofrer impacto. Para Paulo Velasco, países como o Brasil, que dependem de ambos os gigantes, precisam adotar postura pragmática. “O Brasil depende muito dos dois países, são os dois maiores parceiros comerciais brasileiros. Um clima de guerra entre eles cria um cenário de incerteza na economia mundial, mas reforça a estratégia brasileira de buscar alternativas – diz.

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Texto: Mateus Araújo – UOL, em São Paulo

 

 

 

Redação
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