Dívida americana não chegou aos US$ 40 trilhões apenas por causa das guerras ou de um único governo
A dísida é resultado de décadas de déficits, cortes de impostos sem compensação integral, crescimento de programas obrigatórios, crises econômicas, gastos militares e, mais recentemente, do enorme custo dos juros. Agora, no dia 18 de agosto de 2026, a dívida bruta americana ultrapassou oficialmente os US$ 40 trilhões.
No caso do governo Trump, é pertinente discutir o aumento das despesas militares e as novas decisões fiscais, mas sem atribuir a ele sozinho uma trajetória que atravessa governos republicanos e democratas. O dado mais preocupante é que, em 2026, os próprios juros da dívida já superam o gasto anual com defesa, enquanto o déficit continua próximo de US$ 2 trilhões por ano.
Os Estados Unidos chegaram a uma marca que, até pouco tempo atrás, parecia inimaginável: US$ 40 trilhões de dívida pública. O número foi ultrapassado oficialmente, em agosto de 2026, e representa muito mais do que uma cifra impressionante. É um sinal de alerta para a maior economia do planeta e, por consequência, para toda a economia mundial.
A dívida americana não surgiu de uma hora para outra. Ela é resultado de décadas em que o governo federal gastou mais do que arrecadou. Quando as despesas superam as receitas, surge o déficit. Para cobrir esse buraco, Washington toma dinheiro emprestado. O déficit é o problema de cada ano; a dívida é o acúmulo de todos esses déficits ao longo do tempo.
E aqui está uma questão que merece reflexão: governos mudam, presidentes passam, partidos se alternam, mas a dívida continua crescendo.
Republicanos e democratas, em diferentes momentos, contribuíram para esse processo. Houve guerras, recessões, pandemias, programas sociais, estímulos econômicos, cortes de impostos e aumentos de despesas militares. Muitas vezes, diante da necessidade de escolher entre aumentar impostos ou reduzir gastos, Washington preferiu uma terceira alternativa: tomar dinheiro emprestado.
MAS A CONTA SEMPRE CHEGA
E uma das parcelas que mais preocupa atualmente é justamente aquela que não constrói uma estrada, não abre uma escola, não equipa um hospital e não compra um avião militar: “São os juros da própria dívida”.
Em 2025, os Estados Unidos já ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão anual em pagamentos de juros. Em 2026, os juros passaram a representar uma parcela tão grande do orçamento que superam o próprio orçamento de defesa. E é aí que o problema deixa de ser apenas contábil.
Quando um governo precisa destinar uma parcela cada vez maior de sua arrecadação para pagar juros, sobra menos dinheiro para investimentos e políticas públicas. E quanto maior a dívida, maior pode ser a sensibilidade do país às taxas de juros. É um círculo que pode se tornar perigoso: dívida elevada gera mais juros; juros maiores aumentam o déficit; déficits maiores exigem novas dívidas.
MAS ONDE ENTRA DONALD TRUMP NESSA HISTÓRIA?
Trump não criou a dívida americana. Quando assumiu seu segundo mandato, recebeu uma dívida que já vinha crescendo havia décadas. Portanto, seria incorreto atribuir exclusivamente ao atual presidente uma situação construída por sucessivos governos. Mas também seria igualmente incorreto ignorar as decisões tomadas durante seu governo.
O aumento das despesas militares, as decisões relacionadas à segurança nacional e às operações militares americanas no exterior fazem parte de uma política que tem impacto sobre o orçamento. Além disso, as escolhas tributárias e orçamentárias da atual administração precisam ser avaliadas não apenas pelo benefício imediato que prometem à economia, mas também pela forma como elas serão financiadas.
A realidade é que não existe almoço grátis, nem mesmo para a maior potência militar e econômica do mundo.
Os Estados Unidos continuam tendo uma capacidade extraordinária de financiar sua dívida porque o dólar permanece como a principal moeda de reserva internacional e os títulos do Tesouro americano são considerados ativos centrais do sistema financeiro mundial. Mas isso não significa que Washington tenha um cheque em branco.
O problema fica ainda mais evidente quando observamos os números recentes. No ano fiscal de 2025, o déficit federal foi de aproximadamente US$ 1,8 trilhão. Nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, os Estados Unidos já haviam acumulado outros US$ 1,8 trilhão em novos empréstimos. Ou seja: a máquina continua gastando muito mais do que arrecada.
E não estamos falando apenas de guerras. Seguridade Social, Medicare, Medicaid, aposentadorias, saúde e principalmente os juros da dívida representam uma parcela enorme do orçamento americano. São despesas difíceis de reduzir politicamente, porque atingem diretamente milhões de cidadãos.
Por outro lado, cortar impostos pode estimular investimentos, consumo e crescimento econômico, mas, se a redução da arrecadação não for acompanhada por redução proporcional das despesas, o resultado pode ser justamente o aumento do déficit. E essa é a equação que Washington parece não conseguir resolver.
Há ainda uma dimensão internacional. Quando os Estados Unidos se endividam excessivamente, o problema não fica restrito ao território americano. O Tesouro dos Estados Unidos ocupa posição central no sistema financeiro global. Bancos, fundos de investimento, governos estrangeiros, empresas e investidores de todo o planeta possuem títulos americanos.
Por isso, uma eventual perda de confiança na capacidade de Washington administrar suas contas teria consequências muito além das fronteiras americanas. Daí que o mundo inteiro acompanha essa dívida.
E há uma ironia histórica: o país que durante décadas foi apresentado como exemplo de força econômica, disciplina empresarial e capacidade de inovação, precisa agora enfrentar um dos mais difíceis desafios de sua própria história: aprender a equilibrar suas contas públicas sem comprometer crescimento, defesa, proteção social e liderança internacional.
Não se trata de defender simplesmente cortes de gastos. Também não se trata de aumentar impostos indiscriminadamente. Trata-se de fazer aquilo que qualquer família, empresa ou município responsável precisa fazer: definir prioridades, cortar desperdícios, controlar despesas e garantir que as receitas sejam suficientes para sustentar os compromissos assumidos.
A questão é que isso exige coragem política. E coragem política costuma ser rara quando as medidas necessárias são impopulares. O problema americano, portanto, não é simplesmente ter chegado aos US$ 40 trilhões. O verdadeiro problema é perguntar onde essa dívida estará daqui a cinco, dez ou vinte anos se nada for feito.
O Comitê para um Orçamento Federal Responsável observa que a dívida bruta dobrou em aproximadamente dez anos e quadruplicou em menos de duas décadas. O Congressional Budget Office (Escritório de Orçamento do Congresso), por sua vez, projeta que a dívida bruta poderá alcançar cerca de US$ 63,7 trilhões ao final do ano fiscal de 2036, caso as atuais tendências permaneçam.
São números que deveriam provocar uma discussão séria. Não apenas em Washington, mas no mundo inteiro. Porque os Estados Unidos podem continuar sendo a maior economia do planeta, podem continuar tendo o dólar como principal moeda internacional e podem continuar exercendo enorme influência política e militar. Mas nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue escapar indefinidamente da matemática.
A dívida de US$ 40 trilhões não é apenas uma estatística. É uma conta. E toda conta, mais cedo ou mais tarde, precisa ser paga. Por isso o grande desafio americano será descobrir quem pagará essa conta, de que maneira e quanto ela custará às próximas gerações. Essa talvez seja a pergunta mais importante que Washington deveria estar fazendo neste momento. Porque guerras vão e vêm, guerras começam e terminam. Presidentes deixam o poder. Congressos mudam. Mas a dívida permanece!
“A maneira como se chegou a esse ponto de endividamento não foi culpa só do presidente. O fato do país estar nesta situação é também dos parlamentares por não terem feito nada para melhorar. A culpa é de todos eles, com o presidente claramente ocupando um papel central e definindo nessa agenda”.
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Por L. Pimentel
Jornalista – Folha do Estado SC

























