Homenagem às Mulheres: Recordações de um povo onde elas tinham opinião respeitada
Entre os índios cherokee, uma mulher não precisava pedir permissão para encerrar uma vida que já não queria mais compartilhar. Se decidisse se divorciar, podia colocar os pertences do marido para fora de casa. Esse gesto bastava para marcar o fim do casamento. Não era apenas um costume doméstico, era o reflexo de uma sociedade em que o lar, a terra e a continuidade da família estavam profundamente ligados à mulher.
O povo cherokee não seguia a lógica europeia do sobrenome paterno e da propriedade masculina. Sua organização era matrilinear: os filhos pertenciam ao clã da mãe, a herança passava pela linha feminina e, ao se casar, o homem geralmente se integrava ao lar da esposa. A mulher não era uma figura secundária dentro da família. Era raiz, centro e continuidade.
E seu poder não se limitava a casa
As mulheres cherokee cultivavam, distribuíam alimentos, sustentavam grande parte da economia comunitária e podiam ter voz em decisões importantes, inclusive em assuntos de guerra e paz. Não era uma igualdade perfeita nem uma sociedade sem conflitos, mas era um mundo onde o poder feminino tinha um lugar reconhecido, visível e respeitado. E foi exatamente isso que chocou muitos colonos europeus.
Eles chegaram com uma visão muito diferente de família, propriedade e autoridade. Para eles, um sistema em que as mulheres mantinham terra, linhagem e poder de decisão, era desconfortável, quase inaceitável. Com o avanço colonial, leis, religião e estruturas impostas passaram a empurrar as mulheres cherokee para uma posição mais subordinada, tentando substituir sua autoridade tradicional por um modelo dominado por homens.
Mas não conseguiram apagar completamente essa memória. As mulheres cherokee continuaram sustentando a língua, a cultura, a família e a resistência. E sua história nos lembra algo poderoso: houve povos em que a autoridade feminina não era uma ameaça nem uma exceção, era parte natural do equilíbrio da comunidade.
Antes que outros falassem de igualdade como um sonho distante, elas já viviam uma forma real de poder compartilhado.
PAPEL TRADICIONAL E PODER SOCIAL
Matrilinhagem e Propriedade: A linhagem familiar, a identidade do clã e a propriedade passavam de mãe para filhos. As mulheres tinham controle sobre o lar e as terras agrícolas.
Divórcio e Autonomia: Se o casamento terminasse, a mulher finalizava a separação colocando os pertences do marido do lado de fora da casa.
Economia: Elas cultivavam e distribuíam alimentos, sustentando grande parte da economia da comunidade.
Autoridade Política e Guerra: As mulheres Cherokee participavam de conselhos e influenciavam decisões de guerra e paz. Algumas mulheres, conhecidas por sua coragem, recebiam títulos como “War Woman” (Mulher Guerreira) ou Ghigau (“Mulher Amada”).
NANCY WARD E O TÍTULO GHIGAU
Nancy Ward (Nanye’hi): Foi uma das “Mulheres Amadas” mais célebres, com autoridade espiritual e política, liderando o Conselho Feminino de Representantes do Clã e participando do conselho tribal de chefes. Ela também era conhecida por mediar a paz entre os Cherokee e os colonos brancos.
Mudanças Culturais e Evolução (1700–1835)
A partir do século XVIII, influências europeias e missionárias começaram a alterar a sociedade Cherokee. Mudanças culturais influenciaram o papel das mulheres, que começaram a aprender novas formas de alfabetização.
Apesar dessas pressões, muitas mulheres Cherokee demonstraram resiliência, adaptando-se enquanto tentavam manter sua cultura.
MULHERES CHEROKEE MODERNAS
Wilma Mankiller: Em 1987, tornou-se a primeira mulher a chefiar a grande Nação Cherokee, destacando a perseverança e liderança feminina contínua.
Ruth Muskrat Bronson: Educadora e poeta, foi fundamental na defesa dos direitos dos nativos americanos, influenciando políticas federais na década de 1920.
Hoje, a Nação Cherokee continua a valorizar a força e a liderança de suas mulheres, reconhecendo seu papel histórico de sabedoria e governança
ATUALIDADE
Nos dias atuais, caso algum político pretendesse instituir uma lei do retorno da mulher como cabeça da casa, com certeza seria linchado por seus pares. Aos poucos os homens foram se tornando machistas e insaciáveis. Prova disso são os constantes feminicídios que vemos e ouvimos nos noticiosos de rádio e TV todos os dias. Além disso, há homens que discordam de tudo que não lhes diga respeito. Preciso provar isso? Claro que não, é só recordar o nosso país de alguns anos atrás. No entanto, temos que parabenizar as mulheres cherokees, cuja civilização era e ainda é digna por aceitar que elas fossem as cabeças do casal e da casa.
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Por L. Pimentel
Folha do Estado





























