Resta saber se o eleitor paranaense vai simplesmente aceitar o prato servido, ou se vai querer escolher outro cardápio
O encontro deste sábado, promovido pelo governador Ratinho Júnior, reunindo mais de duas centenas de prefeitos em torno de um churrasco a fogo de chão, pode até ter sido vendido como uma confraternização. Mas, na essência, foi aquilo que a política brasileira conhece muito bem: um ato de demonstração de força e, sobretudo, de construção de poder.
Não há ingenuidade possível nesse tipo de movimento. Ao reunir prefeitos – peças-chave no tabuleiro eleitoral – o governador deixa claro que já iniciou, com antecedência, o processo de sucessão estadual. E mais: mostra que pretende conduzi-lo sob sua tutela, como um verdadeiro “fiador” do próximo governo.
A apresentação de um nome alinhado ao seu projeto não surpreende. Pelo contrário, segue uma tradição antiga, quase coronelista, de transferir capital político como se fosse um patrimônio pessoal. A diferença é que, hoje, esse processo se dá sob uma roupagem mais moderna, com eventos festivos, ambiente descontraído, discursos leves – mas com o mesmo objetivo de sempre: alinhar bases e consolidar apoios.
O problema não está apenas na estratégia que, do ponto de vista político, é legítima. O ponto central é outro: até que ponto o eleitor paranaense aceitará uma escolha previamente “abençoada”, construída mais nos bastidores do que no debate público? Apesar de não ter muita escolha…
O Paraná, historicamente, não é um estado de decisões automáticas. E o cenário que se desenha para as próximas eleições indica exatamente isso. De um lado, o candidato do grupo governista, carregando o peso da máquina administrativa e o apoio de prefeitos. De outro, nomes que orbitam fora desse eixo, como o senador Sergio Moro, que podem catalisar um voto mais independente (ou não) e até de contestação.
O risco para o grupo de Ratinho Júnior é evidente: transformar uma eleição que poderia ser de continuidade tranquila em uma disputa polarizada. Afinal, quando a política parece excessivamente combinada, o eleitor tende a reagir.
E há ainda um fator que não pode ser ignorado: prefeitos apóiam, mas não garantem votos. A influência municipal é importante, sem dúvida, mas o eleitor de hoje é mais volátil, mais informado e, muitas vezes, menos disposto a seguir orientações políticas locais ou nacionais.
O churrasco, portanto, foi simbólico. Representa o início de uma corrida eleitoral que promete ser intensa, estratégica e, possivelmente, imprevisível. Mais do que escolher um sucessor, Ratinho Júnior colocou em marcha um projeto de continuidade de poder.
Se vai dar certo, ainda não dá pra responder. Isso quem dirá definitivamente é o povo paranaense nas eleições de outubro. Até lá muita água vai rolar por debaixo da ponte.
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Por L. Pimentel
Folha do Estado





























