Acompanhe os dias tensos que cercaram Joinville em uma República que ainda lutava para se consolidar
Imagine que um exército rebelde entrasse em Joinville e confiscasse muitos dos meios de transporte locais, sob a promessa de devolvê-los – um compromisso, porém, que depois seria apenas parcialmente cumprido. A “Cidade das Flores” viveu uma situação semelhante entre 1893 e 1894, quando o exército federalista de Gumercindo Saraiva ocupou estas terras.
QUERÍAMOS UMA REPÚBLICA, MAS NÃO ESTA!
O Brasil destronou seu monarca para instaurar uma República Federalista, o que deveria garantir considerável autonomia aos estados. No entanto, os primeiros presidentes da “República da Espada” foram centralizadores, gerando um desequilíbrio de poder entre o Executivo e o Legislativo, tanto na esfera federal quanto estadual.
Era contra esse sistema, que concentrava poderes excessivos em um só homem, que os revoltosos lutavam. Eles defendiam o sistema parlamentarista. Mas o poder central não cederia apenas com um convite; assim, o Sul pegou em armas com a intenção de “libertar” o Brasil daquela que chamavam de falsa República.
Nesse avanço rumo ao norte, em direção à capital do país, as forças federalistas que partiram do Rio Grande do Sul precisavam ocupar Santa Catarina e o Paraná. Foi nesse cenário que encontraram Joinville em seu caminho.
JOINVILLE INVADIDA

Narrou Carlos Ficker (1965, p. 343-344) que, em outubro de 1893, o general Piragibe e seus soldados chegaram para “libertar” a cidade. Recrutaram vinte homens à força, mas esbarraram no inesperado: os bombeiros, os membros do Clube de Atiradores e os da Sociedade Ginástica pegaram em armas. O confronto seria inevitável se os recrutados não fossem libertados. Os revoltosos sentiram que Joinville não estava para brincadeira e soltaram os prisioneiros.
Mas quem se contentaria com vinte recrutas se Joinville acabara de mostrar um potencial maior? Assim que pisou em solo joinvilense, Piragibe exigiu que os Bombeiros, Atiradores e Ginásticos o acompanhassem na campanha rumo ao Paraná. A resposta foi unânime: ninguém iria. E havia um agravante: um número ainda maior de homens armados na zona rural estava pronto para afluir ao centro e defender seus concidadãos.
Os federalistas tinham duas escolhas: lutar em Joinville, sofrendo desgaste, ou retirar-se com a simpatia da população, deixando para trás uma cidade agradecida em vez de uma inimiga.
Prevaleceu o bom senso e os federalistas partiram para outras paragens. Não levariam os homens de Joinville, mas o mesmo não se poderia dizer dos cavalos.

JOINVILLE SEM CARROS NEM CAVALOS
Dentro da cidade, víveres e soldados precisaram ser transportados de um lado a outro. Nos carros estava a soldadesca, fora dele e a pé os acompanhavam os colonos proprietários dos veículos.
A historiadora Elly Herkenhoff descreveu assim esse momento:
E muitas vezes os soldados, agastados com a pachorra da locomoção, chicoteavam barbaramente os animais. “Vimos muitos colonos”, diz o “Kolonie Zeitung”, em determinado trecho, “com os olhos marejados de lágrimas, diante dos maus tratos infligidos aos seus cavalos, aos quais todos eles, sem exceção, são apegados de corpo e alma. Mas – o que fazer? Se reclamassem, ainda estavam sujeitos a sentirem a lâmina da espada no próprio corpo – conforme mais de uma vez aconteceu …”.
Contudo, o momento mais crítico ainda estava por vir. Conforme os relatos de Alexandre Döhler, testemunha daqueles dias atípicos, o exército “requisitou” carroças, cavalos e os próprios colonos para o transporte de munições e suprimentos bélicos. O acordo previa que todos seriam soltos no quilômetro 24 da estrada da serra.

Entretanto, sem meios para exigir o cumprimento da palavra empenhada, os civis viram a promessa ser ignorada: foram obrigados a seguir até o quilômetro 61. Lá, os animais foram confiscados para os combates no Paraná, restando aos colonos apenas o abandono e o desalento ao lado de suas carroças vazias.
Uma comissão local foi criada em janeiro para levantar os prejuízos e o valor dos mantimentos fornecidos aos revolucionários. Alguns poucos foram indenizados pela Coletoria de São Francisco do Sul, mas a maioria perdeu seu dinheiro e a esperança de reaver os animais, muitos dos quais morreram em combate no estado vizinho.
Esta foi uma história de coragem, na qual os joinvilenses se protegeram e encararam com serenidade uma força invasora. Ao contrário de outros lugares, em Joinville os federalistas não conseguiram recrutamentos forçados. Os cavalos, porém, não tiveram a mesma sorte, e a cidade levou tempo para se recuperar da perda de seus queridos animais de tração.
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Por Patrik Roger Pinheiro, historiador e coordenador do ‘Memória CVJ’





















