Joinville, 175: Confisco e lágrimas – O dia em que os Federalistas deixaram Joinville sem cavalos

Acompanhe os dias tensos que cercaram Joinville em uma República que ainda lutava para se consolidar

Imagine que um exército rebelde entrasse em Joinville e confiscasse muitos dos meios de transporte locais, sob a promessa de devolvê-los – um compromisso, porém, que depois seria apenas parcialmente cumprido. A “Cidade das Flores” viveu uma situação semelhante entre 1893 e 1894, quando o exército federalista de Gumercindo Saraiva ocupou estas terras.

QUERÍAMOS UMA REPÚBLICA, MAS NÃO ESTA!

O Brasil destronou seu monarca para instaurar uma República Federalista, o que deveria garantir considerável autonomia aos estados. No entanto, os primeiros presidentes da “República da Espada” foram centralizadores, gerando um desequilíbrio de poder entre o Executivo e o Legislativo, tanto na esfera federal quanto estadual.

Era contra esse sistema, que concentrava poderes excessivos em um só homem, que os revoltosos lutavam. Eles defendiam o sistema parlamentarista. Mas o poder central não cederia apenas com um convite; assim, o Sul pegou em armas com a intenção de “libertar” o Brasil daquela que chamavam de falsa República.

Nesse avanço rumo ao norte, em direção à capital do país, as forças federalistas que partiram do Rio Grande do Sul precisavam ocupar Santa Catarina e o Paraná. Foi nesse cenário que encontraram Joinville em seu caminho.

JOINVILLE INVADIDA

Os revolucionários junto à Alameda Brüstlein (Rua das Palmeiras), onde lhes eram servidas as refeições fornecidas pela cidade. (Foto: Arquivo Histórico de Joinville).

Narrou Carlos Ficker (1965, p. 343-344) que, em outubro de 1893, o general Piragibe e seus soldados chegaram para “libertar” a cidade. Recrutaram vinte homens à força, mas esbarraram no inesperado: os bombeiros, os membros do Clube de Atiradores e os da Sociedade Ginástica pegaram em armas. O confronto seria inevitável se os recrutados não fossem libertados. Os revoltosos sentiram que Joinville não estava para brincadeira e soltaram os prisioneiros.

Mas quem se contentaria com vinte recrutas se Joinville acabara de mostrar um potencial maior? Assim que pisou em solo joinvilense, Piragibe exigiu que os Bombeiros, Atiradores e Ginásticos o acompanhassem na campanha rumo ao Paraná. A resposta foi unânime: ninguém iria. E havia um agravante: um número ainda maior de homens armados na zona rural estava pronto para afluir ao centro e defender seus concidadãos.

Os federalistas tinham duas escolhas: lutar em Joinville, sofrendo desgaste, ou retirar-se com a simpatia da população, deixando para trás uma cidade agradecida em vez de uma inimiga.

Prevaleceu o bom senso e os federalistas partiram para outras paragens. Não levariam os homens de Joinville, mas o mesmo não se poderia dizer dos cavalos.

Felix Heinzelmann, comandante do Corpo de Bombeiros: Não vão levar ninguém!

JOINVILLE SEM CARROS NEM CAVALOS

Dentro da cidade, víveres e soldados precisaram ser transportados de um lado a outro. Nos carros estava a soldadesca, fora dele e a pé os acompanhavam os colonos proprietários dos veículos.

A historiadora Elly Herkenhoff descreveu assim esse momento:

E muitas vezes os soldados, agastados com a pachorra da locomoção, chicoteavam barbaramente os animais. “Vimos muitos colonos”, diz o “Kolonie Zeitung”, em determinado trecho, “com os olhos marejados de lágrimas, diante dos maus tratos infligidos aos seus cavalos, aos quais todos eles, sem exceção, são apegados de corpo e alma. Mas – o que fazer? Se reclamassem, ainda estavam sujeitos a sentirem a lâmina da espada no próprio corpo – conforme mais de uma vez aconteceu …”.

Contudo, o momento mais crítico ainda estava por vir. Conforme os relatos de Alexandre Döhler, testemunha daqueles dias atípicos, o exército “requisitou” carroças, cavalos e os próprios colonos para o transporte de munições e suprimentos bélicos. O acordo previa que todos seriam soltos no quilômetro 24 da estrada da serra.

Alexandre Döhler – Cronistas daqueles dias incomuns

Entretanto, sem meios para exigir o cumprimento da palavra empenhada, os civis viram a promessa ser ignorada: foram obrigados a seguir até o quilômetro 61. Lá, os animais foram confiscados para os combates no Paraná, restando aos colonos apenas o abandono e o desalento ao lado de suas carroças vazias.

Uma comissão local foi criada em janeiro para levantar os prejuízos e o valor dos mantimentos fornecidos aos revolucionários. Alguns poucos foram indenizados pela Coletoria de São Francisco do Sul, mas a maioria perdeu seu dinheiro e a esperança de reaver os animais, muitos dos quais morreram em combate no estado vizinho.

Esta foi uma história de coragem, na qual os joinvilenses se protegeram e encararam com serenidade uma força invasora. Ao contrário de outros lugares, em Joinville os federalistas não conseguiram recrutamentos forçados. Os cavalos, porém, não tiveram a mesma sorte, e a cidade levou tempo para se recuperar da perda de seus queridos animais de tração.

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Por Patrik Roger Pinheiro, historiador e coordenador do ‘Memória CVJ’

 

 

Redação
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