Joinville 175: Marcha a Joinville – conflito que quase incendiou a Colônia Dona Francisca

Em 1878, a luta armada ficou por um fio. Relembre a primeira de quatro histórias no especial Joinville 175 anos do Memória CVJ. A Folha do Estado publica todos os 5 capítulos…

175 anos: Joinville comemora um legado que atravessa gerações. Para celebrar essa trajetória de lutas e desenvolvimento, o ‘Memória CVJ’ relembra cinco episódios marcantes da cidade. Para começar, apresentamos um conflito que envolveu Joinville e São Bento do Sul, reunindo descontentamento, tensão e uma iminente ação armada.

Entre 1874 e 1875 – Nasce a insatisfação

Vamos voltar a 1874, quando a Colônia Dona Francisca tinha formado, há pouco tempo, um segundo núcleo onde seria, mais tarde, a cidade de São Bento do Sul. A vida serra acima andava difícil. Ali, os mantimentos vindos de Joinville eram cobrados por um preço elevado e ainda não havia igreja nem hospital. Os colonos não aceitavam essa situação. Além disso, sem poder tirar o sustento da agricultura, eles pleiteavam sementes gratuitas e aumento no salário que ganhavam pelo trabalho na Estrada Dona Francisca, que estava sendo aberta naquela época.

A insatisfação pairava no ar. Em 1875, 40 homens, armados com facas ou espingardas,
desceram a Joinville para exigir do diretor da Colônia, Ottokar Dörffel, o atendimento de suas demandas. Dörffel recebeu seis deles, desarmados, e entendeu que, acima de tudo, eles estavam tão intranquilos que desejavam que a Sociedade Colonizadora os enviasse de volta à Europa.

Em 1878 – Uma marcha a Joinville

Narrou Carlos Ficker (1965, p. 304) na obra “História de Joinville – Subsídios para a Crônica da Colônia Dona Francisca” que, em março de 1878, a província de Santa Catarina trocou de presidente. O novo chefe do Executivo suspendeu as obras e os salários dos trabalhadores da Estrada Dona Francisca. A decisão caiu como uma bomba entre os moradores de São Bento, que já estavam descontentes desde 1875 e haviam passado por períodos de seca e chuvas constantes, prejudicando a colheita. Além disso, a safra de centeio fora devorada por lagartas. Agora, um dos poucos meios de sobrevivência – as obras na estrada – fora paralisado.

Os colonos não suportaram mais. Realizaram reuniões e decidiram por uma rebelião aberta. Kaminski, suplente de subdelegado, enviou a Brüstlein um alerta dizendo que os rebeldes haviam sequestrado o subdelegado Augusto Heeren e desceriam a serra, armados, para cobrar providências da direção da Colônia. Joinville devia se preparar para uma invasão. Heeren, o sequestrado, fora suplente de vereador em Joinville, convocado durante a 5ª Legislatura Monárquica.

Frederico Brustlein/Memória CVJ

Eram 300 os revoltosos que entraram, três dias depois, em Joinville. Nesse momento, surgiu outro personagem que fora vereador na cidade. Prevenido por Brüstlein, o delegado Henrique Jordan – que vereou durante a 1ª, 3ª e 4ª Legislaturas Monárquicas – reuniu joinvilenses capazes de defender a vila e esperou os revoltosos a cerca de um quilômetro da cidade.

Ali, os dois grupos armados se encararam. Foi um momento tenso, no qual ninguém queria disparar primeiro tiro. Os líderes joinvilenses – Jordan, Brüstlein e Etienne Douat – chamaram os colonos à razão. Admoestados, diante de uma guarda de defesa e cansados da longa marcha, os revoltosos depuseram as armas.

Frederico Jordan/Memória CVJ

Talvez não tivessem se rendido se Joinville não respondesse com uma demonstração de força. Informado da situação, o governo da província enviou o Dr. Manoel de Azevedo Monteiro, chefe de polícia interino, acompanhado de praças para restabelecer a ordem. Disse Monteiro em seu relatório:

“(…) somente pela animosa atitude do delegado de polícia Frederico Jordan e de algumas outras pessoas, deixaram os revoltosos de tornar efetivo o fim que os levara a Joinville (…)”.

Enfim, o bom senso prevaleceu. Os rebeldes se desarmaram e designaram representantes para discutir suas demandas em Joinville, mas, em 1878, a luta armada ficou por um fio.

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Por Patrik Roger Pinheiro, historiador e coordenador do Memória CVJ

 

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