O homem que caminhou sobre as águas e declarou: “EU SOU”

Jesus falou por meio daquilo que sustenta a existência — o pão, a água e a luz, mas revelou estar acima das próprias forças da natureza. Sua mais profunda declaração ultrapassou a matéria e o tempo: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. “Em um de seus atos revelou ser o “elemento” ao caminhar sobre as águas””

A humanidade sempre procurou compreender a vida a partir dos elementos fundamentais da existência. A terra sustenta, a água sacia, o ar mantém a vida e a luz vence as trevas. Ao falar ao mundo, Jesus Cristo utilizou imagens ligadas às necessidades mais profundas do ser humano. Apresentou-se como o pão da vida, falou da água viva e declarou ser a luz do mundo. Também falou da videira, da semente, da colheita e da própria vida.

Transformava aquilo que o homem conhecia em linguagem para revelar aquilo que os olhos não conseguiam enxergar. O pão alimenta. A água sacia. A luz ilumina. O ar sustenta a respiração. A terra produz. Tudo isso é essencial à vida e está submetido às leis que regem o mundo natural. Mas os Evangelhos apresentam Jesus não apenas utilizando esses elementos como símbolos de sua mensagem, mas exercendo autoridade sobre a própria natureza. Em meio ao mar revolto, enquanto os discípulos enfrentavam o vento e as ondas, Jesus caminhou sobre as águas. Em outro episódio, repreendeu o vento e ordenou ao mar que se aquietasse, e houve grande calmaria.

Na narrativa cristã, aquele que declarou ser o pão da vida, ofereceu a água viva e afirmou ser a luz do mundo também demonstrou estar acima das limitações naturais impostas ao homem. A água que deveria fazê-lo afundar tornou-se caminho sob seus pés. O vento que ameaçava a embarcação se calou diante de sua palavra. O mar revolto obedeceu à sua autoridade. Não se trata, portanto, apenas dos elementos que sustentam a existência, mas daquele que, segundo a fé cristã, possui autoridade sobre eles.
É justamente nesse ponto que encontramos uma das mais profundas declarações pronunciadas por Jesus: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou.”
Jesus não disse: “Antes de Abraão, eu existia”. Não disse: “Eu fui”. Disse: “EU SOU”. Abraão existiu dentro do tempo. Jesus, naquela declaração, apresentou-se para além dele.
Antes do pão, alguém precisa existir para sentir fome. Antes da água, alguém precisa existir para sentir sede. Antes do caminho, é preciso existir para caminhar. Antes da luz que nossos olhos contemplam, é preciso que exista aquilo que pode ser iluminado. O “EU SOU”, portanto, não representa simplesmente mais um elemento. Representa, na compreensão cristã, o fundamento que antecede todos eles.

No livro do Êxodo, quando Moisés pergunta a Deus qual nome deveria anunciar aos filhos de Israel, recebe a resposta: “EU SOU O QUE SOU.” Séculos depois, diante de homens que conheciam profundamente essa tradição, Jesus declarou: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou.” Na compreensão cristã, a relação entre essas duas declarações é central para entender a identidade atribuída a Cristo.
Talvez por isso Jesus não tenha dito apenas que conhecia a verdade. Ele declarou ser o caminho, a verdade e a vida. Não ofereceu somente alimento: apresentou-se como o pão da vida. Não apontou simplesmente para uma fonte: falou da água viva. Não carregou apenas uma luz: declarou ser a luz do mundo.
Cada uma dessas afirmações toca uma necessidade fundamental da existência humana. Temos fome e sede, procuramos direção, precisamos de luz, buscamos a verdade e lutamos pela vida. Jesus reuniu essas necessidades em uma mensagem que aponta para além daquilo que é material.
Mas existe algo ainda maior. O pão pertence à criação. A água pertence à criação. A terra pertence à criação. O ar pertence à criação. A luz física pertence à criação. O “EU SOU”, entretanto, aponta para antes de tudo isso.
Antes dos elementos. Antes das gerações. Antes dos impérios. Antes de Abraão. Antes da própria contagem do tempo: EU SOU.

O homem que caminhou sobre as águas e declarou: “EU SOU”  Talvez esse seja o maior de todos os elementos, embora já não possamos chamá-lo propriamente de elemento. É a existência. É o ser. É aquilo que não precisa dizer “eu fui” para provar um passado nem “eu serei” para garantir um futuro. Simplesmente: EU SOU.
Tudo ao nosso redor pode mudar. A matéria se transforma, as águas seguem seu curso, as gerações passam, os homens nascem e morrem, os impérios surgem e desaparecem. O tempo consome praticamente tudo aquilo que conhecemos. Mas, no centro da mensagem cristã, permanece uma declaração que o próprio tempo não consegue conjugar no passado: “ANTES QUE ABRAÃO EXISTISSE, EU SOU.”
Não é apenas uma frase, é, para a fé cristã, uma declaração sobre o fundamento de tudo o que existe. Quando tudo passa, Ele permanece.

Quando tudo muda, Ele é. Quando tudo começa e termina, Ele continua sendo. O EU SOU não depende do tempo, não se submete à criação e não se limita à compreensão humana. É a origem, o sustento e o sentido da existência. E, diante de tudo o que nasce, cresce e desaparece, permanece a realidade que nunca deixa de ser: EU SOU.

José Santana
Jornalista – MTB 3982/SC | Graduado em Gestão Pública e pós-graduado em Direito Constitucional | Fundador e Presidente de Honra da Olho Vivo | Editor-chefe da Folha do Estado SC

REFERÊNCIAS BÍBLICAS

BÍBLIA SAGRADA. Antigo Testamento: Êxodo 3:13-14 — Deus se apresenta a Moisés como “EU SOU O QUE SOU”.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus: Mateus 8:23-27 — Jesus acalma a tempestade e os discípulos questionam quem é aquele a quem até os ventos e o mar obedecem; Mateus 14:22-33 — Jesus caminha sobre as águas durante a travessia dos discípulos.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Marcos: Marcos 4:35-41 — Jesus repreende o vento e ordena ao mar que se aquiete.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo João: João 4:10-14 — Jesus fala sobre a água viva; João 6:35 — “Eu sou o pão da vida”; João 8:12 — “Eu sou a luz do mundo”; João 8:58 — “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”; João 10:9 — “Eu sou a porta”; João 10:11 — “Eu sou o bom pastor”; João 11:25 — “Eu sou a ressurreição e a vida”; João 14:6 — “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; João 15:1-5 — Jesus se apresenta como a videira verdadeira.

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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